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Marita Moreno

By | CRU Spotlight

Criativa, arrojada, hiperactiva, a Marita sempre nos surpreendeu pela sua inesgotável energia, pelo seu positivismo, capacidade de liderança e de abrir caminhos nunca antes calcorreados.

Nascida em 1967, em Moçambique, Marita Setas Ferro vive agora em Miramar, mas diz ter pouco tempo para usufruir da praia, já que entre a sua actividade como designer na própria marca — Marita Moreno —, a sua mais recente loja, as horas de formação como professora e as várias organizações nas quais está filiada, os seus dias passam num piscar de olhos.

 

Tem, porém, sempre tempo para dois dedos de conversa, muitos planos e umas francas gargalhadas quando nos traz (à CRU) as suas peças, todas por ela desenhadas e produzidas em Portugal. Os sapatos vêm de Felgueiras e as malas de S.João da Madeira, e os artesãos com quem trabalha encontram-se não só aí como noutros pontos do país, como Açores, Viana do Castelo, Alentejo ou Arco de Baúlhe.

Sempre com um pé na escultura e outro no design, pode dizer-se que o estilo da Marita é influenciado pela sua diversificada formação. Fez o curso profissional de Moda do CITEX, a licenciatura e o mestrado em Escultura na FBAUP, duas pós-graduações  — uma em Gestão Cultural das Cidades no ISCTE e outra de DESIGN e MODA na Universidade do Minho. Há longos anos que é fonte de inspiração e de conhecimento para os alunos de pós-graduação de Design e Moda no IPCA em Barcelos, e para artesãos e designers de todo o país. 

Cruzámo-nos com a Marita Moreno em 2012, quando nos escolheu como ponto de venda para a sua marca e, desde então, a nossa relação não só resiste ao tempo, como, a cada ano, se alarga a mais parcerias e colaborações. Hoje em dia, para além do lado comercial e da inestimável amizade, relacionamo-nos também no âmbito da Between Parallels – uma associação para o design e desenvolvimento sustentável, na qual é Presidente da Direcção — e, ainda, através da sociedade estabelecida com a nossa Gestora da Loja CRU, a Virgínia França, na sua concept store recentemente inaugurada no WOW – World of Wine, em Gaia.

Como vieste a tornar-te designer de moda?

Acho que por acaso…queria ser veterinária, depois arquitecta e depois escultora, mas como tive que alterar o meu plano de estudos algumas vezes no meio desta indecisão, acabei por me candidatar ao CITEX depois do 12º ano, pois tinha que melhorar notas. Claro que desenhava vestidos para as bonecas de papel e fazia roupas para as bonecas com os restos dos tecidos da minha mãe e meias de nylon (estranhíssimas e completamente depreciadas na altura). Com 13/14 anos, comecei a achar piada à máquina de costura Singer que a minha mãe comprou a seguir ao 25 de Abril de 1974 e aprendi a coser à máquina, começando a fazer a minha roupa a partir dos 14/15 anos – primeiro copiando os modelos das revistas Burda e, depois dos 17, já fazendo as próprias peças com alterações e em restos de tecidos diferentes que comprava nas lojas em cedofeita. Adorava roupa em segunda mão e, principalmente, chapéus que colecionava.. Assim, no 12º na Soares dos Reis, e caso não entrasse no ensino superior, candidatei-me ao Curso de Design de Moda no Citex e, em Dezembro, entrei – 3 anos de formação muito intensiva, com muito poucas férias. Depois, no último ano, entrei em Escultura nas Belas Artes do Porto. Ou seja, foi um ano absolutamente louco: aulas todos os dias no citex até às 18h, apanhava o autocarro 78 para a Baixa, chegava às 19h (tinha já perdido as aulas práticas de desenho e escultura) e, aí, tinha aulas até às 23h, depois apanhava o autocarro 20 para casa e depois a noite servia para estudar e fazer trabalhos para os dois cursos. No fim-de-semana, tinha aulas sábado de manhã das 8h30 às 13h30 e o resto era para fazer tudo o que não conseguia fazer durante a semana… Era a loucura total, mas consegui fazer as 5 disciplinas que frequentava e depois fui fazendo e trabalhando a desenvolver colecções (a recibos verdes, pois não podia ter um horário completo). Mesmo assim era complicado na altura de colecções, que coincidiam com a altura dos exames. Foi quando decidi ir dar aulas e fazer todo o curso de escultura a ensinar e a aprender. Adorei os tempos que estive nas Belas Artes, com os meus colegas da turma nocturna e, mais tarde, nas práticas de madeira, metais e pedra. Desta forma, estive sempre ligada ao design de moda, não como profissional do sector, mas como professora e autora de guarda-roupas e cenários. Nunca senti necessidade de criar uma marca, só aconteceu mesmo em 2008, quando fui fazer a pós-graduação de Design e Moda na Universidade do Minho, percebi que tinha o necessário para criar uma marca e de que forma! Foi, então, quando surgiu o projecto inicial da criação da marca.

És senhora ou escrava do teu tempo?

Que pergunta mais matreira! Acho que sou companheira do meu tempo… trabalho sempre muito, com muita intensidade e também com muito prazer. Sou a verdadeira workaholic e sempre considerei que o trabalho que fazemos deve ser uma fonte de grande prazer e grande respeito – o nosso legado como seres humanos, o que nos distingue dos animais mais inteligentes é a nossa capacidade de construir um futuro que escolhemos, através do nosso trabalho. Desde sempre, fui muito independente, casei-me tarde e já com uma forma de estar em que a parte profissional era fundamental na minha vida. Com o nascimento da minha filha, em outubro de 2001, decidi trabalhar em part-time (dava aulas, fazia guarda-roupas para teatro, ballet e ópera e era dirigente associativa) para ficar com tempo para acompanhar a infância dos meus filhos. Aí, trabalhei mais dois anos a dar aulas, e depois optei por ter empresa própria e desenvolver a minha actividade profissional, podendo assim gerir melhor o meu tempo para o nascimento do meu filho, em 2003, e para o crescimento dos meus filhos. Os meus filhos só entraram para o infantário com 3 anos e o meu marido tinha uma actividade profissional muito intensa e ocupada, ficando assim eu na retaguarda da família. Mas, desde 2015 (ano que fiz o rebranding da marca e passei para sapatos e malas) foi muito difícil coordenar tudo – família e trabalho, principalmente pela exigência de idas para o estrangeiro com muita frequência, e aí ficou o meu marido na retaguarda da família, acompanhando mais a educação dos nossos filhos. Como pertencente à cultura judaico-cristã dos países do sul da europa, e como mãe (que em Portugal ainda é a que fica em casa e toma conta das crianças), a minha autonomia e independência profissional foram vistas como um certo “abandono do lar” e não como uma capacidade profissional de chegar mais longe e atingir objectivos empresariais. A parte mais difícil e complicada quando nos dizem “os miúdos têm tido muitas saudades tuas” é que nos sentimos com muita culpa por termos uma actividade profissional activa, mesmo a pressão externa de familiares próximos influência, muitas vezes a dinâmica interna da família… felizmente o meu marido e companheiro sempre me deu todo o apoio e força para fazer e trabalhar naquilo que acreditava ser o meu futuro profissional. Ainda há muito a mudar na forma como se vê o conceito de família… 

Casa, escritório, fábricas, oficina?… Onde passas as tuas horas de criatividade e produtividade?

Não tenho uma rotina, pois esta depende se estamos em altura de criar, desenvolver ou produzir colecções. Quando estou a criar, passo a maior parte das horas no meu Atelier, um espaço próprio, em casa onde tenho os meus livros, as minhas revistas de tendências, os meus materiais para inspiração e depois vou muito a fornecedores, pesquiso e vejo novos materiais. Quando estou em desenvolvimento, a maior parte do tempo é a acompanhar a modelação e a produção de protótipos, ou seja, no modelista e na fábrica a resolver todos os problemas que surjam, desde falta de material até ao fio para fazer os cordões à cor. Na produção, passo quase o dia todo nas fábricas para acompanhar, ver e detectar todos os defeitos e problemas que possam existir. No meio disto, há que responder aos emails, tratar dos assuntos das feiras internacionais, responder a entrevistas e fazer textos de opinião, organizar as sessões fotográficas, fazer preços, gerir a empresa… E desenvolver protótipos de malas e mochilas com o sr. Cruz, fazer pesquisa, dar aulas, e ter tempo à noite para tratar dos assuntos da Between Parallels, ou seja, nunca há monotonia… e o dia precisava de ter mais umas horas.

Copyrights, royaties, desenhos, patentes, marcas… navegas normalmente nestas águas?

Não é uma área que me seja muito familiar, embora tenha feito registo da marca e de desenhos de sapatos. O meu trabalho é um trabalho criativo e de gestão da empresa, que tem custos fixos e despesas a pagar: impostos, ordenados, fotografias, catálogos, espaços de exposição, etc,  por isso há o valor intrínseco de cada produto (material, mão de obra e despesas várias) e o valor que tem que ser indexado a todos os produtos, que diz respeito a estas despesas indiretas e que possa ajudar a pagar a todos este bolo, para que a empresa ainda possa ter lucro.

Atrás de uma grande mulher está sempre…quem?

O Francisco, o meu grande companheiro de vida (que me atura e que sempre me dá imenso apoio) e a Ana e o Pedro – dois filhos incríveis (assim o acho já que sou mãe-galinha). Embora seja a pessoa mais difícil de aturar em casa, pois a minha cabeça nunca pára e estou sempre a arranjar mais trabalho para fazer, o que muitas vezes torna tudo difícil de conciliar. Tenho 3 funcionários em duas empresas (a de design e a de consultoria) que são peças fundamentais na organização de tudo o que faço profissionalmente. Recentemente com a abertura da loja da marca, iniciei uma nova relação empresarial e laboral com a Virgínia França e a Juliana. Trabalho bem com muita gente, mas sou muito exigente, chata no que diz respeito a pormenores e por vezes muito impaciente – acho que as pessoas me lêem o pensamento e que todos já sabem o que eu quero… ou seja não é muito fácil trabalhar comigo a não ser que estejam a 300 à hora como eu ando sempre… ahahah

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

É muito complicado… mesmo! Sou, por natureza, empreendedora (essa coisa da empresária é um pouco dúbia…), ou seja tenho um espírito empreendedor, de construir sempre qualquer coisa de novo, de positivo, de bom, para enriquecer a sociedade com ideias e projectos. Em Portugal, é muito difícil fazermos isto e sermos apoiados devidamente – quando falo devidamente não é só uma questão financeira, é uma questão de internacionalização, de nos dizerem que as nossas ideias são excelentes ou péssimas, que caminhos devemos tomar ou esquecer e pensar tudo de novo. Esta seriedade, profissionalismo e frontalidade na avaliação de projectos novos e diferentes e nos apoios dados ao empreendedorismo são mesmo muito importantes, pois é desta forma que nós conseguimos chegar à qualidade e  excelência. Só para dar um exemplo: não existem apoios para os registos de marcas e patentes a nível internacional (na área da moda e do design) e por isso são impossíveis para uma micro-empresa o fazer; outro exemplo é a falta de apoios dados a concursos internacionais de design, cujas inscrições e participações são altas para as micro-empresas – no meu caso tenho estado a ser nomeada para vários (Alemanha e EUA), ou seja, já fui seleccionada pela organização e tenho que pensar se consigo inscrever a empresa ou não – este tipo de concursos dão uma visibilidade enorme ao país e às competências do design português e, muitas vezes, perdem-se oportunidades de dar a conhecer projectos incríveis e vencedores, pois não temos uma política de apoio a projectos inovadores na área do design e da sustentabilidade. Já fui questionada muitas vezes na Alemanha e em Espanha qual o apoio que o governo me dava para ter uma marca sustentável…

E depois, existe a questão de só os empreendedores de I&T serem os que existem para serem apoiados devidamente – se as instituições apoiassem com os valores e da forma como apoiam os empreendedores na área do artesanato, do design sustentável, assim teríamos paridade nos apoios.

que camisolas vestes com entusiasmo?

Associações, artesanato e design português, sustentabilidade… 

Desde 1996, pertenço a associações na área artística, cultural, artesanal, design, pois acredito profundamente que juntos conseguimos muito mais e está provado que conseguimos! só temos que ser um pouco menos egoístas, mais solidários, termos coragem e deixarmos os medos de lado.

Quais são as tuas principais aspirações para a marca Marita Moreno?

A marca apareceu em 2008, devido à necessidade de dar valor ao património e artesanato português em peças de design contemporâneas do dia-a-dia, feitas em Portugal com materiais portugueses. Este princípio básico de responsabilidade, ética e sustentabilidade manteve-se e foi evoluindo cada vez mais. O objectivo era que a marca fosse uma referência a nível nacional e internacional e que levasse portugueses a fazerem o mesmo e darem valor à nossa enorme riqueza patrimonial e artesanal e isso tem acontecido, o que me deixa muito feliz! Estamos no bom caminho de sermos reconhecidos a nível internacional como uma marca de referência – daí as sucessivas nomeações para prémios internacionais. 

A nível nacional, também estamos muito bem referenciados, mas por vezes ainda temos um pouco aquele pensamento que o que vem de fora é melhor e com mais garantias de qualidade… Por exemplo, em Espanha, tentam sempre que eu seja espanhola de alguma maneira (nome, pais, avós, vizinha, ibérica), o que é incrível e sinto-me muito bem vinda e sei que eles adoram a nossa marca. A pandemia e a forma como os portugueses responderam ao apoio dos negócios locais e portugueses foi fantástica e acho que se percebeu muito bem que “o que é nacional é excelente”, o que de alguma forma veio mudar um pouco o “mindset” geral.

Neste momento abrimos uma loja, que pensamos poder ajudar imenso a dar mais força à marca e à expansibilidade internacional (para outros continentes que não a Europa) – já deveria ter acontecido em 2020 mas foi adiada para 2022. Por isso, o que aspiro para a marca é que cresça e se torne uma referência em muitos países (na europa e a nível internacional) para que mais pessoas venham a fazer também marcas éticas e sustentáveis e possamos, desta forma, construir um futuro melhor e mais sustentável.

quem é a Marita quando não está a trabalhar?

Ahahah… raramente não estou a trabalhar, pois tenho sempre tanto prazer no que faço que nem dou conta que estou sempre focada no meu trabalho. Mas gosto de fazer outras coisas 🙂 Adoro fotografia e, em especial, a parte da composição da imagem e captação do momento único que o nosso olho e cérebro viram naquele instante e que não se vai conseguir repetir – durante muitos anos andava com a máquina fotográfica atrás, com rolo a P/B e fazia a ampliação dos negativos (tinha um ampliador P/B). 

Adoro conhecer cidades novas e visitar museus (é mesmo uma grande paixão) – aquilo que vemos que o homem fez e criou dá-nos uma noção enorme da humanidade e da evolução que todos nós transportamos no nosso ADN e, por vezes, nem percebemos que os museus nos dão essa percepção e esse conhecimento.

Gosto muito de ler, mas infelizmente nos últimos anos não tenho tido tempo para ler muita coisa para além de livros técnicos, profissionais ou relacionados com o design e a sustentabilidade. Tenho uma colecção de livros infantis com ilustrações lindas – comprava para os meus filhos e depois passei a comprar para mim.

Se pudesse, fazia muito mais escultura em couro – permite que o meu cérebro crie sem condicionalismos ou imposições e leva-me para longe. 

Para verdadeiramente descontrair, faço crochet e malha em grande escala para fazer “soft sculptures”.

quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes últimos anos enquanto empreendedora?

Gostaria de saber muita coisa antes de começar e de montar a marca, mas, acima de tudo, dicas para evitar cometer alguns erros desnecessários… outros erros, temos mesmo que os cometer e crescer com eles! Acho que a maior dica seria na parte do projecto de internacionalização: teria feito de forma completamente diferente, com menos investimento e outra calendarização, com prioridades que só depois de termos o projecto finalizado é que percebemos, um maior conhecimento da área comercial e circuitos comerciais internacionais. E depois, o mais importante: manter-nos sempre fiéis ao que somos, ao que fazemos e no que acreditamos!

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Marita Moreno

Rui Canedo

By | CRU Spotlight

Dono de um british accent perfeito  e um igualmente estonteante sotaque tripeiro, o Rui conquistou-nos com a sua personalidade pacífica e trato fácil, e continua a impressionar-nos com o seu talento e criatividade. Curioso, criativo, e muito terra-a-terra quando a sua cabeça não está entre as cores, histórias e personagens de comics.

Rui Canedo, nasceu em Londres em 1991, filho de pais portugueses. Voltou definitivamente para Portugal, no ano 2000. Estudou na ESAD de Matosinhos em Design de Comunicação, onde concluiu a licenciatura em 2013, ano em que começou a trabalhar para a Sonae. Depois de ter tido experiência numa empresa grande, resolveu dedicar-se a full-time no estúdio Another Collective, o qual ajudou a fundar.

Após 2 anos, decidiu que estava na hora de experimentar novos ares no ramo do design e arranjou trabalho na Transformadora, onde se tornou responsável pela comunicação do Museu do FC Porto. E foi esta porta que lhe deu entrada directa no desenho de um painel para o Estádio do Dragão. Por fim, o seu percurso levou-o à última agência onde esteve antes de fundar o Temper Tantrum, a Sēnsus Design Agency.

Tivemos o prazer de conhecer o Rui aquando da sua entrada no cowork da CRU, em 2018, perdurando a relação até aos dias de hoje através do espaço Loja da CRU, onde os Temper Pins e algumas das suas ilustrações estão à venda. Para conhecerem esse lado mais tangível do seu trabalho, podem visitar-nos pessoalmente na CRU ou espreitar o seu site ou loja online.

O que é que te levou a criar o Temper Tantrum?

O Temper Tantrum nasceu da ideia de querer, na altura, uma mudança abrupta na minha vida. Já tinha experienciado o freelancing, mas nunca a 100% e sempre entre trabalhos a full-time. Durante uns tempos, na última agência onde trabalhei, comecei a pensar no que se viria a tornar no Temper Tantrum.  Em Maio de 2018, foi lançado oficialmente e começou o meu percurso a solo. Senti necessidade de criar um nome, sentia que dava outro ar, assim ser conhecido como o Temper, uma certa assinatura. A verdade é que ajudou, pois foi através deste passo que consegui começar algo que sempre imaginei a fazer, que é vender produtos, neste caso os Temper Pins.

Fala-nos da tua viagem entre a tua cama e a tua secretária.

Após muuuuuuitos anos a viajar assiduamente de transportes públicos, com viagens até 1h, cheguei ao ponto ideal de morar a 5/7min do meu local de trabalho. É uma caminhada curta, mas que me dá gosto. É um dos pontos mais importantes do meu dia, pois mentalizo-me que vou trabalhar. Sendo freelancer tenho a facilidade de trabalhar em casa, mas este pequeno percurso é a chave para me pôr em mood de trabalho. Neste momento encontro-me num cowork, já tendo passado o meu início na CRU. Gostei da sensação de partilha e entreajuda, portanto quando me mudei para o atual, o Land, senti que tinha que ser um cowork na mesma, para descobrir mais pessoas e mais coisas.

Quais são os teus canais de comunicação de eleição que usas para fazer conhecer o teu trabalho?

Uso um bocado de tudo. No entanto, os canais que mais uso para publicitar o meu trabalho e produtos são o Twitter, Instagram e Dribbble. Faço o update normal ao meu website e behance, mas são estes três que depois trazem as pessoas ao meu website e lhes dão a conhecer o meu trabalho e produtos. Acho que, no fundo, é sempre incrível ter um cliente novo, mas acho extremamente importante mantê-lo, ou o fazê-lo voltar. Portanto, sempre que tenho um projecto novo, faço os possíveis para ter a melhor relação possível com o cliente, para o fazer querer voltar. Da experiência que tenho, são os clientes que se mantêm que trazem sempre projectos novos, pois lembram-se de nós e da sua experiência connosco.

Como é que o freelancing te tem tratado até agora?

Acho que posso dizer que o freelancing me tem tratado bem. Claro que todos queremos estar melhor do que estamos, mas tem que ser um dia de cada vez, especialmente em freelancing. A incerteza deve ser a pior parte de ser freelancer e está sempre à espreita mesmo que as coisas estejam a correr da melhor maneira. Para mim, é o meu maior obstáculo, durante os projectos está tudo bem, mas aproxima-se o fim e aparece a ansiedade de saber se vai haver mais ou não.

Recorda um dos teus momentos de maior orgulho profissional / Que projecto mais te encheu as medidas?

A minha primeira venda. Na altura, estava na CRU e tinha abertura para poder comunicar com a Virgínia na loja e vender produtos, o que me ajudou imenso a perceber o que poderia vender e como o apresentar. Lembro-me de me aperceber que através dos meus pins, podia marcar vários pontos no mundo com o meu trabalho, no caso desta venda, Paris!

O que está, para ti, a seguir à próxima curva?

Com o tempo, tenho-me focado no tipo de projectos/clientes que procuro, e por isso, tenho adaptado o meu portfólio, e até mesmo os produtos que tenho vindo a desenvolver. Felizmente, já tive uma experiência com um projecto nesse ramo, que é o ramo do gaming/videojogos.

que muletas tecnológicas usas para dominar ou simplificar o teu dia-a-dia?

As aplicações habituais, Photoshop, Illustrator e Indesign. O Figma tem-se tornado cada vez mais uma peça importante, dando o salto do Sketch. Vai fazer um ano que investi num iPad com o Apple Pencil e tem sido uma ferramenta fundamental para muitos dos meus projectos.

Que outra profissão terias se não fosses designer?

Acho que me via a ter uma loja de banda desenhada. Pessoalmente, todos os meses vou (shoutout ao Mundo Fantasma) recolher a minha mensalidade. Sendo uma pessoa que adora coleccionar, acho que seria o ideal para mim, estar rodeado dos temas que gosto, com objectos coleccionáveis. Isso, ou algo completamente fora, como dobragens.

Que armas usaste, a nível profissional, contra as maleitas da pandemia?

Durante o confinamento, pausas. Saber quando parar, saber separar estar em casa a trabalhar de “estar em casa”. Vivo com a minha namorada, portanto, fazia como se tivesse ido para o trabalho. Ia para o escritório de manhã e trabalhava até ao almoço, parava para almoçar, conversávamos um bocado sobre o que quer que fosse (difícil não ser covid na altura) e voltava para o escritório à tarde. Chegava a hora da “saída”, podia voltar para a sala. Só isto dava-me a sensação que estive “fora”, o conseguir separar as divisões para me ajudar mentalmente. Isso e muitas caminhadas. Em termos gerais, felizmente, no fluxo de trabalho a entrar mudou pouco, houve alturas mais lentas, mas aí foi para actualizar o portfólio e contactar possíveis clientes.

Que dicas ou conselhos deixarias para alguém que está a começar na tua área?

Não ter vergonha de pedir ajuda a quem sabe e opiniões a quem pode ajudar. Normalmente, as pessoas associam freelancing a estar sozinho, não tem, nem deve ser assim. Há dias em que não há como decidir sobre uma questão num projecto, outros olhos poderão ajudar-te. Não és obrigado a saber de contabilidade, arranja alguém que perceba do assunto, não tens que fazer tudo sozinho. Espírito colaborativo!

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Rui Canedo

Joana Santos

By | CRU Spotlight

Criadora portuguesa de joalharia contemporânea, Joana Santos vive em Valongo, onde tem presentemente o seu atelier, visitando regularmente o Porto, onde tem sempre diferentes afazeres.

Com inspiração em formas arquitectónicas, mas também nos movimentos da natureza e na arte, cria contrastando a racionalidade da linha com a delicadeza da técnica e a imprevisibilidade do detalhe.

Licenciada em Arquitetura, procura na joalharia de autor a expressão mais pura da sua estética: ângulos rectos e planos simples, com jogos de luz e sombra, que acentuam a tridimensionalidade e volumetria das suas peças.

Do conceito ao desenho e do processo à matéria, é com perfeito rigor que as jóias tomam forma nas mãos de Joana.

Em prata, únicas ou em colecções limitadas, cada peça alia o trabalho manual, minucioso e cuidado, com a pesquisa conceptual e a experimentação técnica.

Desde que se fez joalheira, no Cindor 2013-2016, participou em várias feiras internacionais de joalharia contemporânea e co-fundou diversas lojas de joalharia no Porto.

Pessoa de múltiplos talentos e uma bonita humildade, a Joana é uma das pessoas mais generosas com quem temos o prazer de privar. Conhecemo-la desde a altura em que nos trouxe à CRU uma sua outra marca, a INKI, em 2013. Desde então, é uma pessoa muito activa na nossa comunidade. Podem encontrar as peças da Joana Santos no seu próprio site ou experimentá-las ao vivo na loja da CRU.

Como vieste a tornar-te joalheira?

Sempre fui uma apaixonada pela área, muito influenciada pela minha mãe. Numa viagem ao Brasil, após o contacto mais directo com a profissão, decidi que era o tempo certo para me aventurar na joalharia.

És senhora ou escrava do teu tempo?

Já fui escrava do tempo e do meu trabalho. Quando temos a nossa própria marca, somos muito exigentes e existe a tendência de nunca parar. Felizmente, hoje a postura é diferente e consigo regrar-me. 

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua bancada de trabalho, num dia perfeitamente normal?

No dia-a-dia, a minha banca de ourives está um caos, entre os objectos normais que a compõem, existem sempre inúmeros alicates, réguas, limas e várias peças de distintas colecções. Quando inicio um novo trabalho, gosto de arrumar e limpar a banca de forma a fazer um reset e envolver a oficina de elementos que me inspiram.

Quem são, para ti, referências de sucesso na área da joalharia?

Poderia falar de inúmeros artistas internacionais, mas preciso de nomear os nossos que são igualmente inspiradores e talentosos. Liliana Guerreiro é uma artista que admiro imenso e é uma grande referência de sucesso na joalharia contemporânea portuguesa.

Os produtos da Joana Santos Jewellery são produzidos à imagem da Joana, ou a pensar nos seus clientes?

Penso que num todo, as peças são pensadas e criadas num processo muito pessoal e íntimo. Faço uso das redes sociais para estar mais próxima dos meus clientes e também para tentar compreender quais as suas opiniões sobre o progresso dos trabalhos.

De que outras especialidades te fazes rodear profissionalmente?

Tenho a sorte de estar rodeada por uma comunidade tão diversificada como a CRU. É muito frequente recorrer a esta rede de suporte para complementar o meu trabalho. As parcerias e troca de experiências são extremamente produtivas e gratificantes.

O que te faria mais feliz ou realizada profissionalmente?

Ao longo destes 6 anos de marca, vejo um percurso que me aproxima cada vez mais de um trabalho artístico, numa procura de realização pessoal. Penso que esse seria o lugar em que gostaria de estar um dia — poder criar e expressar-se artisticamente através da joalharia contemporânea.

Quem é a Joana quando não está a trabalhar?

Uma apaixonada por pessoas, amigos, pelo meu cão Jazz, por arte, poesia e moda. Sempre que possível, fujo para junto do mar, a minha terapia para relaxar.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

2020 foi um ano difícil profissionalmente, penso que para todos os criativos. Contudo, aproveitei para fazer formações e bastante trabalho experimental na oficina. Este ano de 2021, apesar de um início igualmente difícil, já foi mais possível ver alguma movimentação de vendas. 

Que dicas ou conselhos deixarias para alguém que está a começar na tua área?

Teria sido uma grande ajuda, no meu início em joalharia, ser alertada para todos os trâmites, toda complexidade e burocracia que regem a joalharia com metais preciosos, neste país. Penso que o melhor conselho que poderei dar será ser fiel a si mesmo e ao seu trabalho, mesmo quando os caminhos nos parecem difusos e complexos; não esquecer de olhar para trás e perceber o que nos apaixona; finalmente, desistir não é uma opção.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Joana Santos

Diogo Abreu | OPO 74

By | CRU Spotlight

O Diogo só podia ser boa gente. Nasceu no dia de São João, ainda por cima na Madeira, gosta de petiscos, tainadas, tascas e…cerveja!

Segundo o próprio, depois de nascer e ser inútil durante uns anos, fez umas coisas. Nadar no CD Nacional e estudar Educação Física e Desporto na UMa, foram algumas dessas coisas. Outra, já com idade legal, foi beber cerveja. Primeiro bebeu aquela que era muita má, depois lá bebeu alguma da boa. 

Foi bebendo melhor e aprendendo cada vez mais e, um dia, começou a fazer cerveja em casa.

Primeiro, e à semelhança da sua própria experiência de consumidor, fez também da muita má e, depois, lá foi acertando numa ou outra mais mediana. 

Entretanto, conheceu a OPO 74 num festival, e apaixonou-se tanto pelas pessoas como pelas cervejas. E, apesar de não ter quaisquer habilitações que justificassem a sua entrada na vida desta empresa, casou-se inelutavelmente com ela! São, assim, felizes há 4 anos.

A OPO74 é a única cerveja que servimos no Coffee Bar da CRU. Também nós nos apaixonámos pela cerveja e, por isso mesmo, mantemos um relacionamento sério com o Diogo Abreu.

Quando foi que te juntaste à OPO74?

A OPO 74 foi criada em 2015 por pessoas discretas, carregadas de valor e ética de trabalho. Em 2017, juntei-me ao projecto e o sossego terminou.

És senhor ou escravo do teu tempo?

É bebedor o trapezista encarregue pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional, pelo que a coisa dá-se com mais deselegância do que aquela que gostaria de admitir. Na verdade, há uma organização orgânica, por vezes caótica, mas alegre.

Que formas encontras de activar a tua marca e de fazer chegar a tua cerveja à boca dos teus clientes?

Tudo começa com um “bom dia”. Com a angariação de bons clientes. Com provas e troca de ideias. Felizmente, temos encontrado parceiros interessantes que se identificam connosco, são eles os maiores catalisadores da marca. Em complemento a isto, há uns eventos aqui e ali, entretanto um pouco dizimados por este vírus chato.

quem são os clientes da OPO74 e o que é que os faz escolher a vossa cerveja?

É a consistência e o despretensiosismo das nossas cervejas que cativam os clientes. Procuramos desmistificar certos conceitos em volta do perigoso termo “artesanal”. A nossa dedicação é com a qualidade e com a democratização do produto. Produzimos cerveja para pessoas comuns. As nossas receitas são anti-snobs. E quando alguém bebe uma OPO 74 e é repentinamente dominada por uma vontade de agarrar outra garrafa, para mim, está o dia ganho.

Como descreverias a tua equipa de sonho?

Actualmente, o meu trabalho é uma espécie de solo de guitarra ligeiramente desafinado, pois sou o único no activo. Para o bem e para o mal, a OPO 74 e o Diogo confundem-se. Ao longo dos últimos anos, tenho descoberto pessoas talentosas, com as quais gostava de trabalhar um dia. Muitas delas são meus concorrentes. Mas, quando roubamos mercado às ditadoras e insípidas cervejas industriais, passamos a ser colegas.

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

Não obstante o pesadelo burocrático, ser empreendedor em Portugal é possível. Existem apoios, as coisas funcionam mais ou menos. Às vezes custa mais tentar vingar num ambiente rarefeito relativamente à cultura exaltadora dos nossos produtos. Há mais pessoas interessadas nisto, mas ainda é nicho.

A que tribos pertences?

Há uma grande mixórdia de pessoas que bebem as nossas cervejas. É difícil identificar um tipo. Porém, parece haver alguns pontos convergentes, pessoas com maior consciência ambiental, que valorizam pequenos negócios, que são fisicamente activas, que têm um palato curioso. Pessoas normalmente contemporâneas e com um gosto estético muito específico, pois os nossos rótulos são um pouco esquisitos.

O que te faria mais feliz ou realizado profissionalmente?

Faço aquilo que gosto numa cidade extraordinária. Não me persuadem, portanto, os arrojados flartes da ambição. No entanto gostava de gradualmente fazer menos vendas e mais outras coisas. Não sei bem, ainda, que coisas seriam essas. Ai, mas fazê-las-ia!

Quem é o Diogo quando não está a pensar em cerveja?

Quando não estou a pensar em cerveja sucumbo ao absurdismo da vida. Também há a corrida, o squash, o vinho, os livros, as bicicletas, o mais recente e deprimente autodidatismo na guitarra, que são coisas interessantes quando bem feitas. Não é o caso.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

A pandemia é de facto um tema incontornável. Além do brutal declínio do volume de vendas, há outros efeitos. Acompanhar os meus clientes, por exemplo, é menos harmonioso. Não há tanta disponibilidade de parte a parte. Não sei se é por ter nascido num sítio remoto ou não, mas sou muito do toque, da proximidade. E isso tornou-se cada vez mais raro. Isso entristece-me. Mas já não me afecta tanto.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Diogo Abreu

Benedetta Grasso

By | CRU Spotlight

Dona de um sorriso autêntico e contagiante, a Benedetta é uma pessoa sonhadora e honesta, curiosa e criativa.

Nascida em Milão, Itália, em 1994, frequentou um colégio artístico, onde se deixou seduzir pela arte e suas técnicas. Sempre se interessou pelo teatro e pelo cinema, mas acabou por se formar em Literatura e Línguas Estrangeiras, tendo escrito uma tese sobre Teatro Social.

Criativa por natureza, a Benedetta adora usar diferentes meios de expressão, ama poesia, a natureza, artesanato e manufactura. Foi a combinação desses interesses que, durante o primeiro lockdown, em Março de 2020, a levou a deitar mãos à cerâmica de uma forma mais dedicada, tendo daí surgido peças francamente bonitas, agora sob o nome de ToBe Ceramics.

As viagens sempre fizeram parte do seu caminho, tendo morado em diversas cidades e países até encontrar no Porto uma alternativa à sua cidade natal. É na Invicta que agora, em 2021, dá início à construção do seu espaço de trabalho de sonho, uma oficina partilhada e multidisciplinar, pensada para inspirar, produzir manualmente e colaborar.

A Benedetta chegou à CRU por vias travessas e acabou por fazer um estágio de 4 meses nas nossas instalações. Durante esse tempo, foi uma preciosa companheira que nos ajudou na nossa recente renovação de espaços e processos. 

A nosso convite, participou num projecto de e sobre a comunidade do quarteirão Bombarda, tendo sido a entrevistadora das peças da nossa mais recente rubrica ‘Bombardians’, que estreará na próxima semana.

As bonitas chávenas do nosso Coffee Bar são da sua autoria, bem como outras peças delicadas e especiais que vendemos na nossa loja, e que podem também ser visualizadas na sua página de instagram.

O que é que te levou a criar a ToBe Ceramics?

O projecto nasceu de uma forma muito orgânica, sem muita premeditação, nem estrutura. Fiz algumas oficinas de cerâmica quando morava em Milão, em 2017 e 2018, e durante o lockdown, em 2020, comprei uma roda de oleiro para praticar sozinha. Esse tipo de técnica é mais uma prática, quanto mais se faz, mais se torna profissional . Depois, fiz uma página do Instagram, inicialmente nascida para eu ter uma organização visual do que estava a fazer. Comecei uma colaboração com a Tânia para o novo bar da Cru Loja, e depois surgiram alguns clientes e amigos que mostraram interesse no que faço. Instalei-me, mais recentemente, num novo estúdio. Amanhã, veremos!

És senhora ou escrava do teu tempo?

Sou uma pessoa bastante organizada, que sabe administrar o seu tempo, mas geralmente quero fazer tudo imediatamente. Ultimamente, tenho aprendido a priorizar as coisas, para não as apressar, mas sim vivenciá-las e apreciá-las. Tenho períodos de extrema quietude, quando nada se move, nem progride, e, tenho períodos em que sou muito produtiva, cheio de ideias e energias. Ambos os períodos são necessários para o meu processo de criação.

Casa, escritório, coworking, oficina?… Onde passas as tuas horas de criatividade e produtividade?

Por fim, tenho um espaço que posso chamar de meu, não porque seja meu, mas porque posso intervir nele da maneira que quiser, decorando-o e fazendo-o sentir-se em casa. É uma casa actual com zona de co-working e zona de atelier, pelo que posso dividir as minhas actividades diárias, estando no mesmo espaço. Possui ainda um jardim, extremamente regenerador e positivo para o processo de criação. O espaço onde trabalho deve ser um espaço onde me sinta em casa, com liberdade para me expressar e que reflicta os meus valores e padrões, sobretudo esteticamente. A minha casa, o lugar onde moro, é o lugar onde descanso e reflicto, onde brinco com a minha gata, cuido dela e de mim. Para mim, o espaço onde trabalho não pode ser o espaço onde também vivo.

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

Mais do que o que está na minha mesa, o que me influencia é o que está ao meu redor, o ambiente em que estou imersa. E, com certeza, tem que ter luz natural, pessoas de espírito, positivas e criativas, um design limpo e muitas plantas. Se houver um gato por perto, é ainda melhor. Preciso de beleza e tranquilidade para ter vibrações positivas e clareza de espírito.

quem são as tuas referências na área da cerâmica? procuras inspiração em outras formas de arte?

Tenho referências aleatórias, principalmente de páginas do Instagram. Não tenho formação académica em cerâmica, sou uma auto-didacta. A minha inspiração é qualquer coisa que seja esteticamente bonita, que seja harmónica e elegante. A minha primeira fonte de inspiração é a natureza, na sua simplicidade, exclusividade e exactidão. Nada é sem sentido na natureza, tudo tem um significado. Por isso, as minhas peças procuram ser simples e elegantes, respondendo a uma necessidade prática, criando, por isso mesmo, peças que possam ser utilizadas no dia-a-dia.

Onde / como podemos encontrar e comprar as tuas peças?

Estou a trabalhar nisso! Comecei uma página do instagram não há muito tempo atrás. Descobri que prefiro usar este meio social para partilhar valores e imagens de alta qualidade mais do que produtos. Em breve, irei criar um site com um catálogo de objectos, que será a montra principal. Depois, claro, lojas locais, com quem continuo a construir colaborações.. Mas, para já, estou a expor algumas cerâmicas no melhor local do Porto — a Cru loja! Gosto de trabalhar por encomenda e co-projectar os objectos com o cliente, para que cada produto seja único e atenda às necessidades específicas do cliente.

Os produtos da ToBe são produzidos à imagem da Benedetta, ou a pensar nos seus clientes?

Uma coisa não exclui a outra. Cada peça é um reflexo da minha forma de perceber a harmonia e do meu gosto, mas claro que se adaptam às necessidades de cada cliente. Gosto de co-desenhar as peças com os meus clientes, para que satisfaçam ambos: a minha necessidade de expressão e a necessidade do cliente de se rodear de algo que tenha um significado pessoal.

Quem é a Benedetta quando não está na roda?

É uma pessoa muito curiosa, muito forte e ao mesmo tempo muito gentil e frágil. É uma pessoa que ama o ar livre, a natureza, ler poemas, partilhar momentos com pessoas, conhecer histórias, explorar o mundo, viajar. É uma pessoa que gostaria de fazer todo o tipo de trabalho manual e artesanato. Até agora, o meu caminho tem sido um caminho de auto-descoberta e de me deixar expressar de forma criativa, ora apoiando-me, ora permitindo-me tentar e falhar. Este processo de exploração criativa ainda está no começo, mas tenho a certeza que há  ainda muito por descobrir. Os meus próximos projectos são muitos, começando pela colaboração com uma ilustradora francesa super fixe que vive no Porto; desenvolver um espaço que é casa mas também coworking e atelier, convidando diferentes artesãos e artistas a partilharem os seus conhecimentos com a comunidade através de workshops e encontros; explorar mais o mundo dos têxteis e jóias de cerâmica.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

A pandemia não afectou a minha maneira de trabalhar… revolucionou-a. Comecei a levar mais a sério o hobby de olaria e a permitir que o meu lado criativo se expressasse mais. Logo no primeiro lockdown, em Março de 2020, estava entediada e longe de casa … Comprei uma roda de oleiro e foi o começo deste pequeno projecto muito recente. Não havia mais espaço para adiamentos, fui forçada a lidar comigo mesma e com a minha vontade de criar.

Tens algum motto ou mantra que recordas em períodos mais desafiantes

Ser paciente, ser gentil consigo mesmo, rodear-se de pessoas que inspirem, criar colaborações, permitir-se perder sabendo-se enraizado no seu centro, ser verdadeiro com aquilo que se é.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Benedetta Grasso

David Penela

By | CRU Spotlight

David Penela é um nome incontornável da ilustração portuense. 

É, aliás, na cidade invicta que vive, trabalha e gosta de passear.

Licenciado em Artes Plásticas – Multimédia, na FBAUP, e Mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, o David tem vindo a utilizar stencil, tinta de spray e lápis sobre papel, explorando a textura, a cor e as nuances que todas estas técnicas possibilitam.

Devorador de pizza em part-time, passa outra metade do tempo em volta de tudo o que seja desenho, ilustração e técnicas de impressão, através das quais explora temas derivados da cultura popular e do seu próprio universo pessoal.

A sua obra está repleta de paisagens naturais, ora mais abstractas, ora mais figurativas, que se constroem a partir da sobreposição de camadas e texturas, o que lhes dá um aspecto manual e único. O seu trabalho tem sido regularmente exposto em inúmeras galerias, individual e colectivamente, desde 2007.

Para nós, o David é realmente alguém muito familiar. Conhecemo-lo há mais de 8 anos, enquanto fazedor — uma das metades da marca Freaks and Geeks, que ainda representamos na nossa loja — enquanto ilustrador — reconhecido, apoiado e divulgado pela nossa vizinha e amiga, Ó! Galeria — e enquanto peça firme na nossa comunidade desde 2015 — presença assídua nos vários eventos (inclusive, o S. João!) da CRU.

Em Maio passado, o ilustrador foi um dos 3 artistas convidados para a exposição colectiva da CRU Galeria, PANO DE FUNDO 2021. Da qual resultou uma série inédita de fundos/backdrops — um deles da sua autoria —, cuja reprodução será lançada ao público em breve e com disponibilidade imediata para requisição no estúdio de fotografia da CRU.

Para melhor conhecerem o seu portfólio podem visitar o website ou a loja online do autor, ou poderão dirigir-se à Ó! Galeria, ou ainda, visitá-lo pessoalmente, aos sábados, no Mercado Porto Belo.

Sabemos que és um freelancer há já vários anos. Em que projecto(s) estás a trabalhar neste momento?

De momento estou a trabalhar em projectos pessoais, algumas ideias que estavam guardadas há algum tempo no sketchbook. Fora do trabalho “profissional”, sempre foi importante explorar projectos e ideias pessoais, quer para exposições, quer para mim mesmo em que posso ser mais experimental.

A que horas gostas de te sentar à secretária?

Encontrar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional consegue ser difícil principalmente quando trabalho a partir de casa. Regra geral, por volta das 9:30 – 10h da manhã já estou na secretária, quer a preparar o dia ou a trabalhar.

O que há para ti nas montanhas, nas casas, nos mares… para que habitem frequentemente o teu trabalho?

Não sei bem explicar o porquê das paisagens. Gosto da simplicidade delas, do “flow” e da forma. A forma é muito importante e a maneira como cada “layer” interage com a outra, também. Tenho memórias de infância de olhar para os montes perto da casa dos meus pais e existir sempre uma única casa a meio das colinas, sozinha e a contrastar com o ambiente em redor. 

O que me move e inspira é o trabalho de outras pessoas, de outros artistas de diferentes campos artísticos.

Onde podemos encontrar e comprar as tuas peças / o teu trabalho?

Podem encontrar o meu trabalho em vários sítios: a Ó! Galeria, no Porto; o Armazém 66, em Viana do Castelo; Área 55, em Guimarães; El Diluvio Universal, em Barcelona, entre outras, para já 😉

Geralmente, clientes, é por email o contacto, quer procurados por mim ou vindos ao meu encontro. O instagram também dá muito jeito para mostrar trabalho, processo, identidade ou até mesmo vender.

Que princípios te regem quando atribuis um preço ao teu trabalho ou negoceias com um cliente?

Os princípios partem da experiência, do trabalho com galerias e da partilha com colegas da profissão sobre preços, métodos e modos de trabalho. Por exemplo, tenho uma tabela mental de preços para originais meus com variantes, tais como, tempo de produção, quantidade de trabalho, etc. Trabalho digital para clientes, já é outra tabela. Geralmente até consulto e peço opiniões a amigos e colegas. Há uma base de preços que, dependendo do pretendido, é ajustável.

Como é para ti ser um criativo independente, actualmente?

É difícil. Embora tenha toda a flexibilidade que precise a segurança de trabalho não acompanha. É bom poder fazer os meus próprios horários, mas, por vezes, o problema é ter que fazer os meus próprios horários e tentar manter essa consistência. Consistência essa de ter de ser ilustrador, social media manager, empreendedor e todas outras funções, é difícil e, por vezes, a cabeça falha. Trabalhar em casa também pode ser uma benção e um problema, no entanto, geralmente consigo fazer essa separação quer com horários (não trabalhar a partir de certa hora a não ser que precise mesmo) ou o espaço de casa (atelier e quarto separados). Eu gosto assim de qualquer das maneiras.

O que te faria mais feliz ou realizado profissionalmente?

Simples, que me cheguem trabalhos bons e bonitos e não parem de vir. Para o futuro, conseguir realizar toda uma lista de ideias que tenho atrasadas e, com sorte, poder incorporar essas ideias no meu trabalho profissional.

Quem é o David quando não está a desenhar?

O David quando não está a desenhar é uma pessoa que gosta de descansar, dar voltas a pé sozinho ou acompanhado, fazer festas ao Louie (o meu gato), comer pizza, jogar jogos (é gamer). Gosto de meias de leite pela manhã, especialmente para começar a semana, e tenho sempre calor.

Que outra profissão terias se não fosses ilustrador?

Não tenho a mínima ideia. Gostava de pilotar aviões, mas não posso. Acho que gostava de algo manual.

Que dicas ou conselhos deixarias para alguém que está a começar na tua área?

Desenhar todos os dias e mostrar trabalho sempre que possível em todo o sítio. Falar e partilhar experiências, dúvidas, material com colegas e amigos.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: David Penela

Rossana Mendes Fonseca

By | CRU Spotlight

Nascida no Porto, no mês de Agosto de 1985, cresceu no meio de muito verde e de muitos livros, com vista para o rio e para a linha de comboio. 

Equilibrando-se como no Twister, com um pé na fotografia e outro na filosofia, uma mão na prática e outra na crítica da arte, entre Paris e o Porto, completou dois mestrados que se intersectaram na palavra e na imagem. Em Fotografia, com especialização em fotografia de Estúdio, no Instituto de Fotografia de Paris Spéos, e em Estudos Artísticos — Teoria e Crítica da Arte, na FBAUP, terminados e selados no ano de 2011, antes e depois de uma imensa viagem de comboio pela Europa, que lhe rendeu política e prosa. 

A prática fotográfica foi-se adensando sobretudo dentro das quatro paredes do estúdio. Entre a natureza morta, a moda, o retrato e algumas séries conceptuais, foi encontrando uma imagética singular, mais editorial e com várias questões estéticas inerentes.  

Depois de alguns anos de investigação sobre a problemática do tempo na experiência contemporânea da prática fotográfica, no grupo de Estética, Política e Artes no Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, em 2013, ingressou no Doutoramento em Arte Contemporânea, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, com avanços e recuos, pausas e investidas, nunca deixando para trás até à data esta eterna questão. Conferências, seminários e, mais recentemente, aulas tornaram-se uma das formas de colocar em acto o pensamento e a palavra que advêm destas leituras infinitas e de uma escrita de si. Passou pela Escola Superior de Educação de Viseu, entre 2016 e 2017, para falar de fotografia, de ética e deontologia da imagem a alunos de comunicação e de artes.

Mais recentemente, tem explorado a fotografia dentro de novas formulações geracionais, bem como a imagem (parada e em movimento) e o som, na Escola Artística Soares dos Reis.

Ainda em 2013, foi-lhe apresentada a CRU, onde instalou um ainda tímido estúdio fotográfico, que foi crescendo até aos dias de hoje, juntamente com todas as parcerias, colaborações e contactos de trabalho que aqui foram estabelecidas, até que em 2017 se afirmou como a curadora oficial da galeria alternativa deste espaço. 

Apesar do não-essencialismo dos seus melhores dias, é convictamente uma criadora independente. E, entre 2015 e 2020, as colaborações com grandes entidades como a Farfetch, o Rivoli, a Elle ou a Vogue Portugal tornaram-se valiosos agentes do seu olhar ávido e escrita inquieta. Quer através de uma exigência de estilo e de técnica na criação de guias de styling de produto para e-commerce, quer pela solicitação de ensaios críticos sobre dança contemporânea ou performance, de entrevistas ou reportagens sobre temas em constante revolução.

Finalmente, ainda no ano de 2020, juntamente com a Filipa Moredo, amiga e companheira de vida, foi criada a VOYEUR, um laboratório criativo que visa trabalhar com criadores independentes e fazer jus ao modo como pretendem ver o mundo crescer de forma sustentável e justa. 

Falta apenas dizer que, apesar das breves incursões por Paris e Lisboa, tudo isto se tem passado sobretudo no Porto!

A Rossana é um dos mais felizes encontros que a CRU, enquanto pano de fundo para serendipidades e acasos frutíferos, nos proporcionou. Alinhada, desde o início, a nossa atitude de partilha, confluência, agregação,  tem sido cúmplice de múltiplas aventuras, uma amiga do peito, e (literalmente) um braço direito. Extensão da nossa energia, contemporaneidade e conceito, no estúdio, na galeria, e em muitas palavras escritas. Num plano profissional, muito nos orgulhamos de ter acolhido duas suas exposições individuais, e ter sido rampa de lançamento para as duas primeiras edições da sua publicação independente, a Duck Soup, que ainda podem encontrar à venda na CRU.

O que costumas escrever no campo ‘profissão’ nos censos e outros formulários tradicionais?

Trapezista. Caminhar em cima de uma corda suspensa acima do nível de qualquer olhar e em equilíbrio e desequilíbrio constantes para não cair. 

Tenho um olhar perscrutante que se traduz num grande apetite imagético e num desejo infinito e até delirante por múltiplos horizontes de escrita. Divido-me, assim, entre a imagem e a palavra, que ora se afastam, ora se aproximam na investigação académica a que me dedico, na direcção criativa da VOYEUR e nas aulas que dou.

Concentração vs procrastinação… qual é a tua receita para a produtividade?

É uma dança. Às vezes, mais ‘slow’, outras, mais frenética. Gosto muito de poder começar o dia lentamente, com café, leitura e as muitas notas que dela decorrem. Ou de poder passar uma tarde a ver filmes, ou a passear e visitar exposições.

Apesar de não ter tantos momentos destes como gostaria, são eles que me dão fôlego, que me inspiram ou que me dão indicação de algo ainda por revelar nas tarefas de maior concentração do dia-a-dia.

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

Tenho múltiplos espaços de trabalho. Não obstante, aquela que considera a minha mesa de trabalho fica na minha sala e tem janelas à frente e estantes de livros atrás. Como quem diz, preciso de horizonte à minha frente e, atrás de mim, um mundo de saber.

A minha mesa de trabalho foi sempre algo de muito importante para mim. Tenho moodboards com designs vários e sonho desde pequena com a mesa certa. Conta a lenda que desde que me conheço que passava a vida a fazer a minha família levar todas as mesas-secretária que encontravam para casa. 

Relativamente aos objectos, é tudo mais simples. Uma agenda para as intenções. Algumas canetas para os rabiscos ocasionais. O computador. Alguns livros a serem consultados na altura. E algumas plantas que vão sobrevivendo ao ar que partilhamos.

Que livros mais te influenciaram na tua vida profissional?

Seriam tantos os livros que me têm acompanhado que é quase uma tarefa ingrata responder. 

Com certeza, nessa resposta, figuraria toda a obra de Gilles Deleuze, um dos meus grandes companheiros de viagem, que me ensinou, sobretudo, a Pensar; de salientar o “Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia”, que ainda hoje reverbera no modo como ‘ensaio’ no mundo. 

Falaria, também, de Virginia Woolf e da sua intuição de um tempo outro, sobretudo o livro “As Ondas”. Ou de Michel Foucault, nomeadamente, os “Cursos do Collège de France”, pela ‘boîte à outils’ de um pensamento sempre contemporâneo. Ou dos fragmentos de Walter Benjamin e de Simone Weil, que inspiram a uma forma de coragem política. 

Mais recentemente, a colecção de livros da Sr. Teste tornou-se um dos grandes objectos do meu desejo e dedicação. Uma série de textos de autores, para mim, intemporais, transformados em belíssimos livros repletos de espanto poético.  

Finalmente, Olivia Laing, autora que comecei a ler a propósito da sua paixão por Virginia Woolf e obsessão por horizontes aquáticos, cuja obra mais recente, “The Lonely City” e “Funny Weather”, se tornou um constante lembrar da Arte como modo de resistência e de reparação, de partilha sensível e hospitalidade com o Outro.

quem são os clientes da Voyeur e o que é que os faz escolher os vossos serviços?

Neste momento, marcas e criadores independentes, já com alguma experiência ou maturidade na área, mas relativamente emergentes no meio digital. 

Como a VOYEUR acredita em trabalhar por um mundo mais sustentável e justo, no sentido de nos podermos intersectar e apoiar uns nos outros, de modo a que todos possam ter condições de possibilidade mais próximas, e, como naturalmente trabalhamos num meio assim, acabamos por ter a visibilidade necessária para que nos contactem. Trata-se, sobretudo, de uma comunicação ‘word-of-mouth’.

As produções mais espontâneas que temos feito, com equipas mais informais ou até experimentais, têm corrido muito bem e têm também contribuído para a afirmação do nosso estilo e da nossa singularidade.

Atrás de uma grande mulher está sempre…quem?

Ideias. Não demasiado humanas e absolutamente impessoais.

Como é para ti ser uma criativa independente, actualmente?

Uma espécie de Frankenstein, ou como a Mary Shelley lhe chamou, um Prometeus Moderno. 

Além da compartimentação óbvia em várias áreas de saber e fazer, a constante adaptação num mundo sempre novo.

O que te faria mais feliz ou realizada profissionalmente?

Neste ínfimo instante (porque estou sempre a mudar de alvo), a criação de uma revista — plano irremediavelmente implantado na cabeça da Voyeur — e terminar a minha tese de Doutoramento — que, só por si, quereria dizer o colocar em marcha de muito mais coisas.

quem é a Rossana quando não está a fotografar, formar ou a escrever?

Continua a ser voyeur e, compulsivamente, flâneur. 

Creio que a minha relação com a leitura seja, talvez, a mais longa e a mais duradoura. De resto, a dança contemporânea, a música, o cinema e as longas conversas são também bons concorrentes aos meus dias. Bem como longas caminhadas urbanas, à boa maneira situacionista. 

Tudo isto acaba por gerir a poética do meu quotidiano, bem como a razão de me dedicar completamente a um trabalho de vida.

quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes anos enquanto empreendedora / freelancer?

Acho que a lição mais valiosa que aprendi ao longo deste tempo todo de trabalho foi que é muito mais motivante, apaixonante, energizante — e tantos outros atributos ligados à vitalidade — fazer as coisas em comunidade, em parceria, junto com alguém. Durante muito tempo, achei que tinha que fazer tudo sozinha de modo a manter a minha independência de ideias e de movimentos, mas com a VOYEUR, com a CRU, e com muita poesia e Ideias à mistura, aprendi que há muito mais singularidade na multiplicidade.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Rossana Mendes Fonseca

Rui Salgado | FIU Jardins Suspensos

By | CRU Spotlight

O Rui é o par de mãos por detrás dos kokedamas mais elegantes do Porto (e do país) — da Fiu – Jardins Suspensos® —, marca que nasceu em 2012 e não parou de ganhar reconhecimento.

Rui Salgado nasceu em Guimarães (1985), mas fez do Porto casa, há já 8 anos.

Licenciado (e pós-graduado) em Arquitectura Paisagística pela UTAD, Rui foi bolseiro no Programa Erasmus com deslocação para Wroclaw (Polónia), frequentando a Uniwersytet Przyrodniczy we Wrocławiu (faculdade das Ciências e do Ambiente, Universidade de Wroclaw). 

Entre 2010 e 2013, foi somando diversas experiências profissionais na área, como em Coordenação e Construção de jardins e em Gestão de campo, produção, manutenção e condução em modo biológico de ervas aromáticas, flores comestíveis e frutos silvestres. Entregando-se, logo depois, a tempo inteiro à Fiu.

A Fiu – Jardins Suspensos® é uma empresa dedicada à transformação de plantas, através de uma técnica milenar japonesa, que implica uma sofisticada moldagem manual da terra e das suas raízes por uma camada de musgo — kokedamas —, envolvida por fios. O resultado é uma forma alternativa, bonita e diferente, de suspender plantas, no interior ou no exterior.  

O Rui é uma pessoa extrovertida, com uma personalidade optimista e positiva, uma atitude profissional e dedicada. Para além de fornecer à nossa loja as suas Fius, quase desde o início (2013), é um amigo da casa e o nosso consultor informal em tudo aquilo que diz respeito a plantas na CRU.

Se este artigo vos fez ansiar por uma destas belas plantas, não hesitem em consultar o site da Fiu ou visitar-nos um dia destes na loja da CRU.

A Fiu tem já um percurso longo, como se foi adensando o teu envolvimento neste projecto?

A FIU – Jardins Suspensos® surgiu em ideia no ano de 2012, através das mãos da Ana Miguel (como bem sabes) materializando-se em Janeiro de 2013 (onde entrei eu).

O meu envolvimento foi sendo gradual,mediante o crescente volume de trabalho que ia aparecendo, aconteceu de uma forma natural e quase inevitável.

O percurso da FIU começou quase como uma brincadeira, começou como uma terapia pessoal que acabou por culminar quase que inevitavelmente num projecto mais profissional. Começou por uma loja de uma colega, também ela paisagista, e a aceitação por parte do público foi ótima, superando as expectativas.

Começámos a receber mais encomendas, mais pedidos de revendas, acabando por ser um crescimento gradual. 

Entretanto, a partir do ano 2015 até 2019, aproximadamente acabei por ficar apenas eu na FIU ( a Ana optou por se dedicar inteiramente ao campo da arquitectura paisagista), onde com muito esforço e dedicação consegui manter a marca, fazendo maioritariamente todas as tarefas necessárias, desde a compra da matéria prima, material, plantas, gestão dos stocks, passando pela produção dos kokedamas propriamente dita, a sua entrega ao cliente final, angariação de clientes, burocracia com contabilistas, etc…Foi um período desgastante, com algumas passagens muito conturbadas, que me ocupava quase todo o tempo, e que me levaram quase a desistir! Porém, e com ajuda da família e de alguns amigos, consegui resistir e arranjar forças para continuar, porque sempre acreditei na potencialidade do projecto e sempre acreditei que um dia iria compensar !

Em meados de 2019, deu-se uma espécie de “revolução” na FIU com a entrada da Telma. Uma vendedora nata, com uma apetência fora do comum para angariação de clientes e gestão das redes sociais. Encontrei o parceiro perfeito para esta minha caminhada, pois consegue ser ainda um pouco mais “doente” do que eu no que diz respeito ao trabalho! 

Isto possibilitou-me ter mais tempo para a produção e, consequentemente, para a parte criativa que tanto me faltava. Ela fica, então, responsável por toda a parte administrativa, e eu pela parte mais “prática” e produtiva. 

Desde então, a FIU tem vindo a crescer significativamente, estando agora com enormes perspectivas de crescimento às quais vamos tentar corresponder. 

Trabalho e conhaque…como doseias o teu cocktail?

Nem sempre é fácil dosear o tempo quando a mão de obra é fundamentalmente duas pessoas, e ainda por cima quando vivem e trabalham juntas no mesmo local! Porém, com alguma resiliência, tolerância e paciência, tudo é possível. 

Criámos horários laborais e pessoais (que às vezes não são bem seguidos à risca… O laboral acaba quase sempre por levar a melhor (hehe), mas é fundamental criarmos uma distinção entre o pessoal e o profissional: cada um ter o seu próprio espaço, e não nos deixarmos consumir pelo stress e preocupação. 

Até à data as coisas têm funcionado bem! 

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

No meu caso, a minha secretária é um pouco fora do comum..e adoro isso! Não tem canetas nem tablets…, nem folhas e agrafadores. Tem sim, plantas (muitas plantas), musgo, agulhas, fios de pesca, fios de “sapateiro”, linhas de algodão, pregos, alicates, tubos de latão, caixas de papelão!  

Trabalho numa pequena varanda, no centro do Porto (onde tudo acontece) que, apesar de estar no centro, é extremamente sossegada, onde predominam maioritariamente o canto dos passarinhos e o zumbido das abelhas. Tenho um enorme conjunto de árvores no meu alargado campo de visão, que me tranquiliza com os seus movimentos quase hipnotizantes naquelas brisas de Verão. Para mim, é o local de trabalho quase perfeito e, apesar de ser o meu “trabalho”, vejo mais como uma terapia pessoal, à qual já não consigo prescindir, e que me faz crescer imenso enquanto pessoa!

que formas encontras de activar a tua marca e de fazer chegar o teu trabalho às casas dos teus clientes?

Fundamentalmente, através das redes sociais e do marketing digital, penso que, com toda esta pandemia, estes processos vieram a ser “catalisados” de uma forma quase inevitável.

Apostamos também em parcerias com pessoas, projectos, que se identifiquem com a nossa forma de estar, e com os nossos princípios. Tentamos criar relações simbióticas em que ambos possamos ganhar com isso.

quem são os clientes da Fiu e o que é que os faz escolher os teus kokedamas?

Os clientes da FIU são clientes cientes da importância da preservação do ambiente que nos rodeia. Têm noção do impacto ambiental iminente, algumas vezes de uma forma um pouco “crua”, mas que no fundo percebem que alguma coisa não está bem e fazem algo para tentar mudar isso.

Os kokedamas FIU são únicos! Somos os embaixadores dos kokedamas em Portugal. Temos mais experiência e conhecimento do que qualquer outro, e isso traduz-se e reflecte-se na perfeição do nosso produto. Todas as plantas são escolhidas criteriosamente, todos os materiais são de primeira qualidade, as técnicas utilizadas, todas elas optimizadas e o mais sustentável possível, para criar um produto final melhor.

Quero acreditar que nos escolhem por criarmos um design duradouro e significativo que agregue valor e contribua para um planeta mais saudável.

Como descreverias a tua equipa de sonho?

A equipa de sonho, independentemente de quem seja, tem de partilhar os nossos valores, o nosso conceito, tem que se identificar com aquilo que acreditamos! 

Um bom analista financeiro que fornece uma estratégia inicial de crescimento sustentável, fundamental para o sucesso a longo prazo.

Uma excelente relação com todos os parceiros revendedores.

Bons vendedores que compreendam e consigam passar a nossa mensagem. 

Um bom marketeer que consiga estar sempre a par das novas tendências do marketing digital e consiga, ao mesmo tempo, inovar no branding.

Mas, fundamentalmente, a “equipa de sonho” iria ter que ser a melhor no seu campo e, acima de tudo, partilhar da nossa visão:

Um profundo respeito e consideração pelo bem estar do planeta e dos seus recursos!

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

O Porto está a tornar-se  cada vez mais um “porto” financeiro, uma verdadeira “incubadora” de ideias, onde surge talento e oportunidade quase ao virar de cada esquina e, como tal, exige de qualquer empreendedor, particular atenção ao detalhe, saber agarrar a oportunidade quando esta aparece, estar num constante estado de alerta. Mas, ao mesmo tempo, saber e ter a noção que vai haver falhas, e mais do recriminar essas falhas, ter a humildade de aprender com elas, porque só assim iremos evoluir de uma forma sustentável e a longo prazo.

O que está, para a Fiu, a seguir à próxima curva?

A FIU tem um potencial enorme, é muito mais do que a simples venda de kokedamas. Houve uma evolução natural e necessária naquilo que diz respeito ao produto em si (kokedama) com a introdução permanente de novas espécies, de forma a aliciar constantemente o cliente. Damos muita importância ao feedback recebido, quer pelos nossos clientes quer pelos nosso parceiros revendedores, e, nesse sentido, houve um acrescentar de complementos ao produto, de forma a colmatar alguns entraves por eles (clientes) colocados. Nomeadamente, a introdução de novas e variadas estruturas de forma a ser possível pendurar os kokedamas sem ter que andar a “furar tectos”.

O caminho da FIU passa por abraçar a diversidade e promover a responsabilidade social. Estamos empenhados em contribuir de uma forma mais impactante e causar mudanças mais positivas! Para isso, temos apostado mais em acções de formação, nomeadamente, os nossos workshops, onde mais do que aprender a fazer kokedamas, procuramos que quem participa se sinta um pouco mais feliz, mais realizado, que consiga abstrair-se do stress diário, e encontre alguma paz, harmonia e felicidade nesse tempo. E, ainda, que pegue nessa felicidade e a espalhe, que a semeie por quem o rodeia! Acreditamos que “pequenas” acções podem fazer uma grande diferença! 

O futuro vai passar sempre por uma constante reinvenção, e uma constante dinâmica, sem nunca perder o foco naquilo que nos define. Queremos puxar os nossos limites, mas sempre com uma abordagem atenta ao detalhe e ligada aos princípios do ser humano, optando por um design sustentável e uma constante inovação. Queremos ter um impacto positivo, deixar um “rasto” de felicidade por onde passarmos, fazer pessoas mais felizes com o nosso trabalho. No fundo, tentar aquele objectivo quase idílico e utópico de fazer um “mundo melhor”.

Que armas usaste, a nível profissional, contra as maleitas da pandemia?

Curiosamente, nesta pandemia, acabámos por ter mais trabalho do que o habitual, fruto das campanhas que fizemos junto das redes sociais. No que diz respeito aos nossos parceiros revendedores, houve uma quebra muito grande, visto que praticamente todos os estabelecimentos de venda ao público estavam encerrados. Porém, as nossas vendas online dispararam, fruto também de uma boa estratégia de marketing digital, apesar de o nosso produto ser mais “apetecível” ao vivo.

quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes anos enquanto empreendedor?

Acho que vou ser muito simples e prático nesta questão e, como é óbvio, contextualizá- la com base na minha mais modesta experiência. 

Resiliência, persistência, motivação, sacrifício, humildade, ser auto-didata, vontade de querer sempre melhorar e aprender, estar actualizado na área em que trabalhamos, estar atento a tendências e novidades, estar na vanguarda do que nos interessa, tentar estar sempre “um passo à frente”, nunca tomar nada como garantido e, nesta era de globalização, ser multidisciplinar!

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Rui Salgado

Filipa Moredo

By | CRU Spotlight

Com sangue do norte, a FIlipa tem muita garra e um coração gigante. É imediatamente notório que é uma pessoa acarinhada por todos aqueles com quem interage. Comunicadora, gentil e genuinamente dedicada às pessoas, projectos e causas que abraça, Filipa Moredo é uma profissional independente, super criativa e extremamente competente.

Bragança é a sua cidade natal, mas foi na cidade invicta que estudou e para onde voltou após o seu curso de Marketing no ISCAP.

Em 2012, enquanto trabalhava numa associação de apoio a crianças com deficiência, conheceu Cíntia Woodcock, com quem viria a criar a Portugal Lovers e o Urban Market — mercado de criadores portugueses —, um dos eventos mais conhecidos da marca. 

Em 2019, as duas sócias decidiram seguir caminhos diferentes e a Filipa criou a sua própria empresa, Mesh Up Events, dando continuidade ao evento Urban Market e à sua missão de promover criativos portugueses.

2020 trouxe incertezas, pausas, mas também novas parcerias. Nomeadamente a VOYEUR, um laboratório criativo de produção de conteúdos escritos e visuais, projecto iniciado com Rossana Mendes Fonseca, e que pretende impulsionar marcas emergentes nos meios digitais. 

Conhecemos a Filipa aquando da sua entrada no nosso espaço de cowork, há cerca de 8 anos e, desde então, tem sido uma companheira de mil e uma aventuras, dentro e fora de portas. Hoje em dia, com uma ligação à CRU mais firme e permanente, é a nossa Head of Marketing.

Sabemos que és freelancer há já vários anos. Em que projecto(s) estás a trabalhar neste momento?

Sou freelancer há quase 10 anos.  

Neste momento, tenho o Urban Market em pausa, devido à pandemia. Entretanto, em maio de 2020, com a criação da VOYEUR, foram surgindo novos trabalhos de gestão de redes e criação de sites.
No final de 2019, fui convidada para a equipa do FANTASPORTO, o Festival Internacional de Cinema, trabalho que se mantém até hoje.

E, no final deste ano, a convite do Simão do Vale Africano aceitei ser produtora no seu novo projeto, VÁCUO, co-criado por ele e pelo Daniel Silva, que esperamos ver, em breve, numa sala de espectáculos.

Concentração vs procrastinação… qual é a tua receita para a produtividade?

Sou uma pessoa de manhãs e a minha receita para a produtividade começa cedo com o exercício matinal. Eu sei e sinto que, senão o fizer, a minha energia e predisposição ao longo do dia não é a mesma. 

No que  toca à organização, tenho por hábito planear o meu dia e fazer “To do lists”.

Que livros mais te influenciaram na tua vida profissional?

Gosto imenso de ler livros que me façam questionar e me deixem a pensar.

Nunca li propriamente impulsionada pela profissão, no entanto, vejo documentários e ouço muitos podcasts ligados à criatividade, entre eles, um dos meus favoritos é o “A Beautiful Anarchy” do David DuChemin. Por causa da pandemia, houve momentos em que senti que a minha criatividade estava a esmorecer, então fui buscar um livro que me foi recomendado e que aconselho, o “Creativity” do John Cleese.

Como descreverias a tua equipa de sonho?

Como trabalho com diferentes projectos, tenho sempre trabalho com  pessoas diferentes, com métodos de trabalho distintos. Por isso nunca idealizei uma equipa de sonho. Para mim essa equipa tem por base a comunicação, saber ouvir as pessoas e respeitar a opinião delas. Saber idealizar em conjunto, para um bem e objectivo comum.

Como é que o freelancing te tem tratado até agora?

Ao longo destes 10 anos de vida como profissional criativa independente sempre tive os meus altos e baixos, mas no geral não me posso queixar.

Claro que tudo na vida tem dois lados, e pelo lado negativo demarco a falta de apoio a nível estatal, e a possibilidade de ver projectos serem ‘usurpados’ por outras entidades.

Que camisolas vestes com entusiasmo?

Desde o momento em que entrei para a CRU – em 2013 – que o sentimento de pertença a uma comunidade criativa como esta, nunca me fez tanto sentido. 

Este espaço tornou-se, para mim, uma segunda casa, uma segunda família. 

Visto esta camisola com muito orgulho, pelas pessoas, pelo espaço e pelas experiências que me proporcionaram ao longo destes anos. Vou estar sempre grata à Tânia e ao Miguel que tornaram isto possível.

Que apps/software fazem te ti uma super-mulher?

Neste momento recorro a  imensas aplicações para gestão de redes sociais – ossos do ofício – e ultimamente à aplicação Notas do Iphone, para as minhas “To do list”. 

Quem é a Filipa quando não está a trabalhar?

Sou uma pessoa que gosta de pessoas e, por isso, está intrínseco em mim a ajuda aos outros. Estou sempre pronta para conviver, para uma jantarada com os amigos, para conversar e acima de tudo ouvir. 

Se puder, não perco um concerto, uma peça de teatro ou uma ida ao cinema. Adoro viajar e recentemente percebi o prazer de fazê-lo sozinha.
Depois tenho o outro lado, adoro estar sozinha e ter os meus momentos de dolce far niente.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

Engraçado como, em tempos complicados, conseguimos reinventar-nos e ajustar-nos às circunstâncias. Durante a pandemia, apercebi-me que não conseguia estar parada, necessitava de trabalhar ou, pelo menos, ajudar. 
Nessa altura, surgiu a oportunidade de ir apoiar um centro de idosos, e não hesitei. Foram dois meses muito importantes para mim e, na verdade, foi uma “chapada de realidade” perante o panorama em que vivíamos.
A criação da VOYEUR, juntamente com a Rossana, permitiu-me alargar o meu espectro de trabalho para diferentes áreas, para além da organização e produção de eventos.

Tens algum motto ou mantra que recordas em períodos mais desafiantes?

Não tenho propriamente um motto, mas sempre tive um olhar muito positivo perante os momentos desafiantes da vida. Para mim, será sempre: “coração aberto, cabeça erguida, tu és capaz.”

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Filipa Moredo

Rui Ribeiro

Rui Ribeiro | Musgo

By | CRU Spotlight

Rui Ribeiro é co-fundador da Musgo, uma marca de design e produção de peças de mobiliário — com especial enfoque nos candeeiros —, feitas a partir da reutilização de madeiras e outros materiais sustentáveis.

Rui Ribeiro nasceu a 1985 e é licenciado em desporto e educação física pela FADE-UP. 

No regresso a Portugal, em 2016, após uma estadia de 3 anos no Rio de Janeiro, ele e a sua parceira e arquitecta Margarida Monteiro, decidiram consumar a aspiração em comum: dar vida aos excedentes de produção e aos materiais resultantes de recuperações e restauros de casas antigas portuguesas – portas, janelas, vigas.

Da simplicidade e respeito pelas características dos materiais que recuperam resulta um design intemporal. Paralelamente, a incessante procura pelo menor impacto ambiental com os seus produtos leva-os a estabelecer parcerias com instituições de ensino e investigação como a Universidade de Aveiro, bem como a utilizar materiais inovadores e inócuos ambientalmente, como o eco-cimento.

A loja da CRU tem orgulhosamente representado a Musgo e vendido os seus candeeiros desde 2018. A nossa relação com o Rui e a Margarida tem vindo a estreitar-se ainda mais desde a criação da Between Parallels, associação que advoga o design e desenvolvimento sustentáveis em Portugal, e onde todos somos sócios fundadores.

As peças da Musgo podem ser encontradas no site da marca ou na loja física / online da CRU.

O que é que te levou a criar a Musgo?

Eu e a Margarida, sempre tivemos ambição de trabalhar juntos num negócio próprio por acreditarmos que nos complementaríamos e quando regressamos do Brasil, em 2016, vimos a oportunidade de criar a Musgo.

Casa, escritório, coworking, oficina?… Onde passas as tuas horas de criatividade e produtividade?

O local de trabalho é o nosso atelier, numa antiga vacaria, que foi criado por nós e para nós e é onde nos sentimos bem! Estar em contacto com a Natureza é algo que nos traz tranquilidade, paz e inspiração para novos candeeiros e outras peças!

Quem são os clientes da Musgo e o que é que os faz escolher os teus produtos?

O nosso público alvo é maioritariamente um público ligado à sustentabilidade com preocupações ambientais e que valoriza o trabalho manual, o impacto social, as tradições portuguesas e a inovação associada ao Design. Somos igualmente solicitados por Arquitetos e por gabinetes de Arquitectura de Interiores. Os nossos pontos de venda são o nosso site e as redes sociais, lojas físicas parceiras e alguns mercados e exposições que participamos enquanto marca Musgo.

Como proteges a tua criatividade?

Essa é uma questão complexa devido ao tipo de produto e à facilidade com que as formas e os materiais podem ser ligeiramente alteradas e assim ser difícil proteger o que é nosso.

Quem mais faz parte do projecto Musgo? Como dividem as vossas tarefas e responsabilidades?

A Musgo foi criada por mim e pela Margarida. De uma forma genérica a Margarida é a criativa e eu mais responsável pela logística, mas ambos produzimos manualmente os candeeiros e temos a ajuda de um carpinteiro para as madeiras.

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

Ser empreendedor, ou tentar, é sobretudo um desafio e um processo de crescimento diário para conseguir estar sempre à altura do que possa surgir. Vivemos com a incerteza do futuro mas com a convicção que a cada dia que passa estamos mais perto de sermos bem-sucedidos.

A que tribos pertences?

Pertenço, enquanto sócio fundador, à Between Parallels, uma Associação para o Design e Desenvolvimento Sustentável. Esta participação deve-se ao facto de um grupo de marcas amigas do ambiente, microempresas ou empresas em nome individual, sentirem a necessidade de ter uma voz conjunta e reforçada.

O que te faria mais feliz ou realizado profissionalmente?

O futuro passa por criar novos candeeiros, alargar a nossa oferta para o mobiliário, experimentar outros materiais ecológicos e inovadores e levar a Musgo aos quatro cantos do Mundo!

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

No que diz respeito às práticas diárias pouco mudou pois já tínhamos como hábito estarmos bastante “confinados” ao nosso Atelier. Contudo, passamos a sair ainda menos vezes (idas a fornecedores, parceiros e clientes) que o habitual. Quanto ao trabalho, apesar da incerteza e da maioria das lojas parceiras estarem fechadas, foram surgindo novos clientes através do nosso site e das nossas redes sociais o que, de certa forma, manteve o nosso volume de trabalho e conseguimos ter tempo para o processo criativo.

Quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes anos enquanto empreendedor?

Sendo a Musgo um projecto iniciado do ponto zero e numa área de actuação relativamente nova fez com que todo o processo fosse de muita aprendizagem numa perspectiva de melhorar e evitar ao máximo erro. Acredito que fomos sempre sendo desafiados, por clientes e parceiros, e isso fez com que mais que errarmos fomos nos adaptando às exigências mantendo-nos sempre fiéis à identidade da Musgo.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Musgo