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Ema Ribeiro | Ó! Galeria

By | Bombardians

A Ó! Galeria, situada no efervescente quarteirão de Miguel Bombarda, é um projecto centrado na ilustração, desenho, livros, zines e peças de autor de todo o mundo. Abriu há 11 anos, no CCB, num espaço muito pequeno dividido em barraquinhas com diferentes negócios, graças à visão da Ema, que fomos hoje entrevistar. “Somos profissionais em crise económica, começámos em 2009, quando houve a grande crise!”.

O percurso de Ema vai de Belas Artes, passando pela fotografia, mas sem nunca ter sido ilustradora; a ideia de criar uma galeria de ilustrações surgiu de uma necessidade. “Tenho amigos ilustradores profissionais que lutavam para ter espaços para mostrar os trabalhos deles de uma forma dignificante, a maior parte deles mostrava o trabalho em cafés e bares e, muitas vezes, as obras de arte eram pouco valorizadas. Percebi a importância de ter um espaço para eles, e o que eu quis no início era montar uma loja de arte com muita mais ilustração do que outro tipo de arte, alguns objectos de design, pequenas esculturas. Ao longo do primeiro ano, percebemos que era a ilustração o que as pessoas procuravam, e começámos a afunilar até ser só mesmo ilustração.”. Pouco a pouco, as pessoas começaram a entender a ilustração como obra artística, finalmente, conseguiu-se rentabilizar e receber ordenados deste projecto.

O grande passo da Ó! Galeria foi mudar para a Rua Miguel Bombarda, num sítio com muita visibilidade e com mais dinâmicas e movimento dos turistas. É aqui que a Ó! começou a desenvolver-se a sério, começando a convidar mais artistas, organizando eventos e residências para não ser só um espaço de exposição, mas também um espaço de troca. Hoje, a Ó! Galeria conta com mais de 50 ilustradores, 50% estrangeiros e 50% portugueses; entre os estrangeiros, há muitos espanhóis, mas também ingleses, franceses, argentinos… “A maior parte deles somos nós que encontrámos, estamos em constante procura. Eu gosto de dar a oportunidades a novos ilustradores, mas é complicado em termos de armazenamento e organização”. 

A visão da Ema é ampla o suficiente para acolher diferentes artistas, mas também tem uma linha de estilo específica. “Se nós olharmos para as paredes vemos que há alguma coerência. Creio que seja bom ter uma especificidade dentro do mundo da ilustração. Eu privilegio sobretudo a originalidade, a qualidade, naturalmente, mas é bastante difícil encontrar originalidade, uma linguagem própria que não se vê noutros sítios. É normal que os ilustradores quanto mais novos são, mais absorvam várias influências e depois não se consigam emancipar destas influências e criar o seu próprio estilo”. Por isso, um dos objectivos do trabalho da galerista é também acompanhar o ilustrador nos primeiros anos de produção até ao momento em que o artista já está com um corpo de trabalho forte, quando já se sente coerência no seu trabalho. “Temos que transmitir alguma segurança ao público e ao investidor que quer comprar um original e, por isso, é importante garantir que o artista seja sólido”. 

Infelizmente durante a pandemia a Ó! Galeria passou por algumas dificuldades, na medida em que a ilustração e a arte não são bens de primeira necessidade. Felizmente, as pessoas, sobretudo os portugueses, quiseram ajudar a galeria comprando obras online durante o confinamento.

Em 2019, nasceu a Ó! Cerâmica, o novo projecto da Ó! Galeria. Uma galeria de cerâmica contemporânea com uma área de atelier fundada pelo Nuno Santos e pela Ema. Na parte da loja, são expostos uns vinte artistas escolhidos pela Ema e, na parte do atelier, há residentes que utilizam o espaço para trabalhar e desenvolver os próprios projectos pessoais. Situada igualmente no bairro das artes de Miguel Bombarda, pretende divulgar o trabalho de ceramistas portugueses e estrangeiros através de exposições, residências artísticas, palestras ou workshops. 

A ideia da Ó! Cerâmica nasceu da Ema quando, há três anos atrás, durante um workshop de roda de oleiro, reavivou as emoções e o amor que tinha por esta técnica e começou a querer voltar a fazer algo ligado a isso. O Nuno também sempre gostou de fazer obras manuais e de experimentar, por ele a Ó! Cerâmica seria exatamente isto. “Estou sempre a experimentar coisas novas, nunca é igual e podes sempre fazer mais e mais.”

A ideia inicial era fazer um estudo em casa, mas a Ema e o Nuno começaram a perceber que em termos de logística era difícil ter uma roda, um forno e o equipamento todo na própria habitação; o conceito, então, expandiu-se e decidiram fazer um espaço que tivesse uma parte de exposição de peças e uma parte de trabalho para eles. Depois de terem aberto ao final do ano de 2019, tiveram que fechar muito tempo por causa da pandemia, mas quando reabriram perceberam que o lado do estúdio, inicialmente pensado só para o Nuno e a Ema trabalharem, era a parte que criava mais dinâmica e atraía pessoas, graças aos workshops de grupo e aos workshops personalizados.

Proust questionnaire com Ema Ribeiro

Qual é o teu lema?

Work hard and be nice to people.

O que valorizas mais nos teus amigos?

Estar presente. Quando precisar deles, estarem lá.

O que estás aprender agora?

Marketing digital.

Qual é o teu bem mais precioso?

O meu amor.

Como é que defines a felicidade?

São momentos.

Qual o talento que gostarias de ter?

Adorava cantar, não tenho voz nenhuma, é horrível!

Três palavras para te descrever.

Teimosa, teimosa, teimosa.

Duas palavras para descrever a Ó! Galeria.

Casa colorida ou casa feliz, uma coisa assim. Mas, com certeza, a Ó Galeria é uma casa.

Uma palavra para descrever o Quarteirão Bombarda.

Criatividade. E se pudesse acrescentar outra palavra seria resiliência.

Bombardians é a nova rubrica que dedicamos aos nossos vizinhos – pessoas e negócios criativos que fazem parte do Quarteirão das Artes do Porto.

Entrevista: Benedetta Grasso Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: João Ferreira

Diogo Abreu | OPO 74

By | CRU Spotlight

O Diogo só podia ser boa gente. Nasceu no dia de São João, ainda por cima na Madeira, gosta de petiscos, tainadas, tascas e…cerveja!

Segundo o próprio, depois de nascer e ser inútil durante uns anos, fez umas coisas. Nadar no CD Nacional e estudar Educação Física e Desporto na UMa, foram algumas dessas coisas. Outra, já com idade legal, foi beber cerveja. Primeiro bebeu aquela que era muita má, depois lá bebeu alguma da boa. 

Foi bebendo melhor e aprendendo cada vez mais e, um dia, começou a fazer cerveja em casa.

Primeiro, e à semelhança da sua própria experiência de consumidor, fez também da muita má e, depois, lá foi acertando numa ou outra mais mediana. 

Entretanto, conheceu a OPO 74 num festival, e apaixonou-se tanto pelas pessoas como pelas cervejas. E, apesar de não ter quaisquer habilitações que justificassem a sua entrada na vida desta empresa, casou-se inelutavelmente com ela! São, assim, felizes há 4 anos.

A OPO74 é a única cerveja que servimos no Coffee Bar da CRU. Também nós nos apaixonámos pela cerveja e, por isso mesmo, mantemos um relacionamento sério com o Diogo Abreu.

Quando foi que te juntaste à OPO74?

A OPO 74 foi criada em 2015 por pessoas discretas, carregadas de valor e ética de trabalho. Em 2017, juntei-me ao projecto e o sossego terminou.

És senhor ou escravo do teu tempo?

É bebedor o trapezista encarregue pelo equilíbrio entre vida pessoal e profissional, pelo que a coisa dá-se com mais deselegância do que aquela que gostaria de admitir. Na verdade, há uma organização orgânica, por vezes caótica, mas alegre.

Que formas encontras de activar a tua marca e de fazer chegar a tua cerveja à boca dos teus clientes?

Tudo começa com um “bom dia”. Com a angariação de bons clientes. Com provas e troca de ideias. Felizmente, temos encontrado parceiros interessantes que se identificam connosco, são eles os maiores catalisadores da marca. Em complemento a isto, há uns eventos aqui e ali, entretanto um pouco dizimados por este vírus chato.

quem são os clientes da OPO74 e o que é que os faz escolher a vossa cerveja?

É a consistência e o despretensiosismo das nossas cervejas que cativam os clientes. Procuramos desmistificar certos conceitos em volta do perigoso termo “artesanal”. A nossa dedicação é com a qualidade e com a democratização do produto. Produzimos cerveja para pessoas comuns. As nossas receitas são anti-snobs. E quando alguém bebe uma OPO 74 e é repentinamente dominada por uma vontade de agarrar outra garrafa, para mim, está o dia ganho.

Como descreverias a tua equipa de sonho?

Actualmente, o meu trabalho é uma espécie de solo de guitarra ligeiramente desafinado, pois sou o único no activo. Para o bem e para o mal, a OPO 74 e o Diogo confundem-se. Ao longo dos últimos anos, tenho descoberto pessoas talentosas, com as quais gostava de trabalhar um dia. Muitas delas são meus concorrentes. Mas, quando roubamos mercado às ditadoras e insípidas cervejas industriais, passamos a ser colegas.

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

Não obstante o pesadelo burocrático, ser empreendedor em Portugal é possível. Existem apoios, as coisas funcionam mais ou menos. Às vezes custa mais tentar vingar num ambiente rarefeito relativamente à cultura exaltadora dos nossos produtos. Há mais pessoas interessadas nisto, mas ainda é nicho.

A que tribos pertences?

Há uma grande mixórdia de pessoas que bebem as nossas cervejas. É difícil identificar um tipo. Porém, parece haver alguns pontos convergentes, pessoas com maior consciência ambiental, que valorizam pequenos negócios, que são fisicamente activas, que têm um palato curioso. Pessoas normalmente contemporâneas e com um gosto estético muito específico, pois os nossos rótulos são um pouco esquisitos.

O que te faria mais feliz ou realizado profissionalmente?

Faço aquilo que gosto numa cidade extraordinária. Não me persuadem, portanto, os arrojados flartes da ambição. No entanto gostava de gradualmente fazer menos vendas e mais outras coisas. Não sei bem, ainda, que coisas seriam essas. Ai, mas fazê-las-ia!

Quem é o Diogo quando não está a pensar em cerveja?

Quando não estou a pensar em cerveja sucumbo ao absurdismo da vida. Também há a corrida, o squash, o vinho, os livros, as bicicletas, o mais recente e deprimente autodidatismo na guitarra, que são coisas interessantes quando bem feitas. Não é o caso.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

A pandemia é de facto um tema incontornável. Além do brutal declínio do volume de vendas, há outros efeitos. Acompanhar os meus clientes, por exemplo, é menos harmonioso. Não há tanta disponibilidade de parte a parte. Não sei se é por ter nascido num sítio remoto ou não, mas sou muito do toque, da proximidade. E isso tornou-se cada vez mais raro. Isso entristece-me. Mas já não me afecta tanto.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Diogo Abreu

Marina Costa | CC Bombarda

By | Bombardians

Hoje fomos visitar a Marina, do Centro Comercial Bombarda, onde tem também uma loja vintage. A sua formação inicial é como designer gráfica, fazendo, depois, formação em produção na agência de design de Francisco Providência, onde aprendeu muitas coisas e construiu as ferramentas base para o futuro. Contudo, este tipo de trabalho não era o que ela queria.

“Tinha um bom ordenado mas estava muito infeliz. Então, decidi alugar uma unidade da loja do meu pai e ficar com uma parte para vender velharias, livros de poesia, discos, roupas usadas e roupas de jovens talentos”.

Como a localização da loja não era suficientemente boa, Marina decidiu colaborar com uma amiga dela para encontrar um sítio mais adequado aos próprios desejos. “Como a Paola trabalhava no mundo da arte, tinha ouvido que, na Rua Miguel Bombarda, o Fernando (Santos) estava a abrir uma galeria. Fomos dar uma espreita e vimos uma casa maravilhosa de quatro andares com jardim e decidimos alugar. Em 1998, abrimos o Café Velharias, mas ainda tinha muito espaço livre e a renda para pagar era alta… então, pensámos em começar a convidar gente que tinha a ver connosco e que tinha projetos que gostávamos”. Começaram a juntar-se cada vez mais projetos novos e gente dinâmica, como o Matéria Prima, que na altura tinha um projecto online de discos e publicações, e a casa inteira encheu-se rapidamente. Nem depois de três anos toda a gente falava do Artes em Partes. Marina continuou a administrar o espaço por mais doze anos, quando surgiram alguns problemas que a fizeram desistir do negócio. “As empresas cresciam e eu não tinha espaço para elas crescerem, por isso saíam…aquilo de facto era uma incubadora de projetos e negócios, por isso foi bom mas na realidade era muito trabalho e eu só tinha um lucro moral”.

Foi no mesmo ano, em 2010, que surgiu a oportunidade de Marina administrar o Centro Comercial Bombarda. “A ideia era a de aquilo ser ligeiramente mais comercial para se manter o interesse também pela gente que vem visitar o Porto. O projecto teve um crescimento rápido e positivo, pois a escolha dos negócios foi criteriosa.” Naquela altura, no quarteirão, as únicas lojas que existiam eram um chinês, um senhor que vendia candeeiros e umas dez galerias; quando abriu o CCB, a Rua Miguel Bombarda começou a tornar-se numa zona mais interessante a nível comercial e o quarteirão tornou-se mais dinâmico, menos selectivo e a chamar mais povo.

Neste momento, o Centro Comercial Bombarda conta com 23 lojas entre as quais, o mercado semanal aos sábados, o Berdinho.

“O quarteirão está a crescer bem, precisaria de mais investimento para a rua ficar mais atractiva e criar dinâmicas únicas, mas a direcção é positiva. Esta tendência dos estrangeiros virem para aqui abrir lojas também é boa; há gente muito interessante que vem de fora e tem outra visão, outra frescura. Têm uma abordagem completamente diferente da nossa e é muito importante para nós aprendermos com eles e com a sua profissionalidade. O covid é uma crise que vai diferenciar quem vai aguentar e quem não…vai ser uma selecção natural.”

Proust questionnaire com Marina Costa

Qual é o teu lema?

Perseverança.

Qual é uma coisa que sempre quiseste fazer?

Ser independente.

O que estás aprender?

Agora, em específico, a história da joalharia.

Qual é a qualidade que mais gosta numa pessoa?

Sinceridade.

Qual é a tua maior extravagância?

Emborrachar-me à noite.

Qual é a tua característica mais marcante?

teimosa

Três palavras para te descrever.

Persistente, desorganizada e crente, acredito nas coisas e faço. Se tu queres realmente uma coisa, tu consegues, tens que trabalhar para isso.

Duas palavras para descrever o CCB.

Fresco e curioso, porque há coisas que têm alguma piada e que são diferentes.

Uma palavra para descrever o Quarteirão Bombarda.

Tem que ser o melhor. Há muita gente com valor aqui mas temos que nos organizar melhor.

Bombardians é a nova rubrica que dedicamos aos nossos vizinhos – pessoas e negócios criativos que fazem parte do Quarteirão das Artes do Porto.

Entrevista: Benedetta Grasso Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: João Ferreira

Benedetta Grasso

By | CRU Spotlight

Dona de um sorriso autêntico e contagiante, a Benedetta é uma pessoa sonhadora e honesta, curiosa e criativa.

Nascida em Milão, Itália, em 1994, frequentou um colégio artístico, onde se deixou seduzir pela arte e suas técnicas. Sempre se interessou pelo teatro e pelo cinema, mas acabou por se formar em Literatura e Línguas Estrangeiras, tendo escrito uma tese sobre Teatro Social.

Criativa por natureza, a Benedetta adora usar diferentes meios de expressão, ama poesia, a natureza, artesanato e manufactura. Foi a combinação desses interesses que, durante o primeiro lockdown, em Março de 2020, a levou a deitar mãos à cerâmica de uma forma mais dedicada, tendo daí surgido peças francamente bonitas, agora sob o nome de ToBe Ceramics.

As viagens sempre fizeram parte do seu caminho, tendo morado em diversas cidades e países até encontrar no Porto uma alternativa à sua cidade natal. É na Invicta que agora, em 2021, dá início à construção do seu espaço de trabalho de sonho, uma oficina partilhada e multidisciplinar, pensada para inspirar, produzir manualmente e colaborar.

A Benedetta chegou à CRU por vias travessas e acabou por fazer um estágio de 4 meses nas nossas instalações. Durante esse tempo, foi uma preciosa companheira que nos ajudou na nossa recente renovação de espaços e processos. 

A nosso convite, participou num projecto de e sobre a comunidade do quarteirão Bombarda, tendo sido a entrevistadora das peças da nossa mais recente rubrica ‘Bombardians’, que estreará na próxima semana.

As bonitas chávenas do nosso Coffee Bar são da sua autoria, bem como outras peças delicadas e especiais que vendemos na nossa loja, e que podem também ser visualizadas na sua página de instagram.

O que é que te levou a criar a ToBe Ceramics?

O projecto nasceu de uma forma muito orgânica, sem muita premeditação, nem estrutura. Fiz algumas oficinas de cerâmica quando morava em Milão, em 2017 e 2018, e durante o lockdown, em 2020, comprei uma roda de oleiro para praticar sozinha. Esse tipo de técnica é mais uma prática, quanto mais se faz, mais se torna profissional . Depois, fiz uma página do Instagram, inicialmente nascida para eu ter uma organização visual do que estava a fazer. Comecei uma colaboração com a Tânia para o novo bar da Cru Loja, e depois surgiram alguns clientes e amigos que mostraram interesse no que faço. Instalei-me, mais recentemente, num novo estúdio. Amanhã, veremos!

És senhora ou escrava do teu tempo?

Sou uma pessoa bastante organizada, que sabe administrar o seu tempo, mas geralmente quero fazer tudo imediatamente. Ultimamente, tenho aprendido a priorizar as coisas, para não as apressar, mas sim vivenciá-las e apreciá-las. Tenho períodos de extrema quietude, quando nada se move, nem progride, e, tenho períodos em que sou muito produtiva, cheio de ideias e energias. Ambos os períodos são necessários para o meu processo de criação.

Casa, escritório, coworking, oficina?… Onde passas as tuas horas de criatividade e produtividade?

Por fim, tenho um espaço que posso chamar de meu, não porque seja meu, mas porque posso intervir nele da maneira que quiser, decorando-o e fazendo-o sentir-se em casa. É uma casa actual com zona de co-working e zona de atelier, pelo que posso dividir as minhas actividades diárias, estando no mesmo espaço. Possui ainda um jardim, extremamente regenerador e positivo para o processo de criação. O espaço onde trabalho deve ser um espaço onde me sinta em casa, com liberdade para me expressar e que reflicta os meus valores e padrões, sobretudo esteticamente. A minha casa, o lugar onde moro, é o lugar onde descanso e reflicto, onde brinco com a minha gata, cuido dela e de mim. Para mim, o espaço onde trabalho não pode ser o espaço onde também vivo.

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

Mais do que o que está na minha mesa, o que me influencia é o que está ao meu redor, o ambiente em que estou imersa. E, com certeza, tem que ter luz natural, pessoas de espírito, positivas e criativas, um design limpo e muitas plantas. Se houver um gato por perto, é ainda melhor. Preciso de beleza e tranquilidade para ter vibrações positivas e clareza de espírito.

quem são as tuas referências na área da cerâmica? procuras inspiração em outras formas de arte?

Tenho referências aleatórias, principalmente de páginas do Instagram. Não tenho formação académica em cerâmica, sou uma auto-didacta. A minha inspiração é qualquer coisa que seja esteticamente bonita, que seja harmónica e elegante. A minha primeira fonte de inspiração é a natureza, na sua simplicidade, exclusividade e exactidão. Nada é sem sentido na natureza, tudo tem um significado. Por isso, as minhas peças procuram ser simples e elegantes, respondendo a uma necessidade prática, criando, por isso mesmo, peças que possam ser utilizadas no dia-a-dia.

Onde / como podemos encontrar e comprar as tuas peças?

Estou a trabalhar nisso! Comecei uma página do instagram não há muito tempo atrás. Descobri que prefiro usar este meio social para partilhar valores e imagens de alta qualidade mais do que produtos. Em breve, irei criar um site com um catálogo de objectos, que será a montra principal. Depois, claro, lojas locais, com quem continuo a construir colaborações.. Mas, para já, estou a expor algumas cerâmicas no melhor local do Porto — a Cru loja! Gosto de trabalhar por encomenda e co-projectar os objectos com o cliente, para que cada produto seja único e atenda às necessidades específicas do cliente.

Os produtos da ToBe são produzidos à imagem da Benedetta, ou a pensar nos seus clientes?

Uma coisa não exclui a outra. Cada peça é um reflexo da minha forma de perceber a harmonia e do meu gosto, mas claro que se adaptam às necessidades de cada cliente. Gosto de co-desenhar as peças com os meus clientes, para que satisfaçam ambos: a minha necessidade de expressão e a necessidade do cliente de se rodear de algo que tenha um significado pessoal.

Quem é a Benedetta quando não está na roda?

É uma pessoa muito curiosa, muito forte e ao mesmo tempo muito gentil e frágil. É uma pessoa que ama o ar livre, a natureza, ler poemas, partilhar momentos com pessoas, conhecer histórias, explorar o mundo, viajar. É uma pessoa que gostaria de fazer todo o tipo de trabalho manual e artesanato. Até agora, o meu caminho tem sido um caminho de auto-descoberta e de me deixar expressar de forma criativa, ora apoiando-me, ora permitindo-me tentar e falhar. Este processo de exploração criativa ainda está no começo, mas tenho a certeza que há  ainda muito por descobrir. Os meus próximos projectos são muitos, começando pela colaboração com uma ilustradora francesa super fixe que vive no Porto; desenvolver um espaço que é casa mas também coworking e atelier, convidando diferentes artesãos e artistas a partilharem os seus conhecimentos com a comunidade através de workshops e encontros; explorar mais o mundo dos têxteis e jóias de cerâmica.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

A pandemia não afectou a minha maneira de trabalhar… revolucionou-a. Comecei a levar mais a sério o hobby de olaria e a permitir que o meu lado criativo se expressasse mais. Logo no primeiro lockdown, em Março de 2020, estava entediada e longe de casa … Comprei uma roda de oleiro e foi o começo deste pequeno projecto muito recente. Não havia mais espaço para adiamentos, fui forçada a lidar comigo mesma e com a minha vontade de criar.

Tens algum motto ou mantra que recordas em períodos mais desafiantes

Ser paciente, ser gentil consigo mesmo, rodear-se de pessoas que inspirem, criar colaborações, permitir-se perder sabendo-se enraizado no seu centro, ser verdadeiro com aquilo que se é.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Benedetta Grasso

David Penela

By | CRU Spotlight

David Penela é um nome incontornável da ilustração portuense. 

É, aliás, na cidade invicta que vive, trabalha e gosta de passear.

Licenciado em Artes Plásticas – Multimédia, na FBAUP, e Mestre em Desenho e Técnicas de Impressão, o David tem vindo a utilizar stencil, tinta de spray e lápis sobre papel, explorando a textura, a cor e as nuances que todas estas técnicas possibilitam.

Devorador de pizza em part-time, passa outra metade do tempo em volta de tudo o que seja desenho, ilustração e técnicas de impressão, através das quais explora temas derivados da cultura popular e do seu próprio universo pessoal.

A sua obra está repleta de paisagens naturais, ora mais abstractas, ora mais figurativas, que se constroem a partir da sobreposição de camadas e texturas, o que lhes dá um aspecto manual e único. O seu trabalho tem sido regularmente exposto em inúmeras galerias, individual e colectivamente, desde 2007.

Para nós, o David é realmente alguém muito familiar. Conhecemo-lo há mais de 8 anos, enquanto fazedor — uma das metades da marca Freaks and Geeks, que ainda representamos na nossa loja — enquanto ilustrador — reconhecido, apoiado e divulgado pela nossa vizinha e amiga, Ó! Galeria — e enquanto peça firme na nossa comunidade desde 2015 — presença assídua nos vários eventos (inclusive, o S. João!) da CRU.

Em Maio passado, o ilustrador foi um dos 3 artistas convidados para a exposição colectiva da CRU Galeria, PANO DE FUNDO 2021. Da qual resultou uma série inédita de fundos/backdrops — um deles da sua autoria —, cuja reprodução será lançada ao público em breve e com disponibilidade imediata para requisição no estúdio de fotografia da CRU.

Para melhor conhecerem o seu portfólio podem visitar o website ou a loja online do autor, ou poderão dirigir-se à Ó! Galeria, ou ainda, visitá-lo pessoalmente, aos sábados, no Mercado Porto Belo.

Sabemos que és um freelancer há já vários anos. Em que projecto(s) estás a trabalhar neste momento?

De momento estou a trabalhar em projectos pessoais, algumas ideias que estavam guardadas há algum tempo no sketchbook. Fora do trabalho “profissional”, sempre foi importante explorar projectos e ideias pessoais, quer para exposições, quer para mim mesmo em que posso ser mais experimental.

A que horas gostas de te sentar à secretária?

Encontrar um equilíbrio entre vida pessoal e profissional consegue ser difícil principalmente quando trabalho a partir de casa. Regra geral, por volta das 9:30 – 10h da manhã já estou na secretária, quer a preparar o dia ou a trabalhar.

O que há para ti nas montanhas, nas casas, nos mares… para que habitem frequentemente o teu trabalho?

Não sei bem explicar o porquê das paisagens. Gosto da simplicidade delas, do “flow” e da forma. A forma é muito importante e a maneira como cada “layer” interage com a outra, também. Tenho memórias de infância de olhar para os montes perto da casa dos meus pais e existir sempre uma única casa a meio das colinas, sozinha e a contrastar com o ambiente em redor. 

O que me move e inspira é o trabalho de outras pessoas, de outros artistas de diferentes campos artísticos.

Onde podemos encontrar e comprar as tuas peças / o teu trabalho?

Podem encontrar o meu trabalho em vários sítios: a Ó! Galeria, no Porto; o Armazém 66, em Viana do Castelo; Área 55, em Guimarães; El Diluvio Universal, em Barcelona, entre outras, para já 😉

Geralmente, clientes, é por email o contacto, quer procurados por mim ou vindos ao meu encontro. O instagram também dá muito jeito para mostrar trabalho, processo, identidade ou até mesmo vender.

Que princípios te regem quando atribuis um preço ao teu trabalho ou negoceias com um cliente?

Os princípios partem da experiência, do trabalho com galerias e da partilha com colegas da profissão sobre preços, métodos e modos de trabalho. Por exemplo, tenho uma tabela mental de preços para originais meus com variantes, tais como, tempo de produção, quantidade de trabalho, etc. Trabalho digital para clientes, já é outra tabela. Geralmente até consulto e peço opiniões a amigos e colegas. Há uma base de preços que, dependendo do pretendido, é ajustável.

Como é para ti ser um criativo independente, actualmente?

É difícil. Embora tenha toda a flexibilidade que precise a segurança de trabalho não acompanha. É bom poder fazer os meus próprios horários, mas, por vezes, o problema é ter que fazer os meus próprios horários e tentar manter essa consistência. Consistência essa de ter de ser ilustrador, social media manager, empreendedor e todas outras funções, é difícil e, por vezes, a cabeça falha. Trabalhar em casa também pode ser uma benção e um problema, no entanto, geralmente consigo fazer essa separação quer com horários (não trabalhar a partir de certa hora a não ser que precise mesmo) ou o espaço de casa (atelier e quarto separados). Eu gosto assim de qualquer das maneiras.

O que te faria mais feliz ou realizado profissionalmente?

Simples, que me cheguem trabalhos bons e bonitos e não parem de vir. Para o futuro, conseguir realizar toda uma lista de ideias que tenho atrasadas e, com sorte, poder incorporar essas ideias no meu trabalho profissional.

Quem é o David quando não está a desenhar?

O David quando não está a desenhar é uma pessoa que gosta de descansar, dar voltas a pé sozinho ou acompanhado, fazer festas ao Louie (o meu gato), comer pizza, jogar jogos (é gamer). Gosto de meias de leite pela manhã, especialmente para começar a semana, e tenho sempre calor.

Que outra profissão terias se não fosses ilustrador?

Não tenho a mínima ideia. Gostava de pilotar aviões, mas não posso. Acho que gostava de algo manual.

Que dicas ou conselhos deixarias para alguém que está a começar na tua área?

Desenhar todos os dias e mostrar trabalho sempre que possível em todo o sítio. Falar e partilhar experiências, dúvidas, material com colegas e amigos.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: David Penela

Rossana Mendes Fonseca

By | CRU Spotlight

Nascida no Porto, no mês de Agosto de 1985, cresceu no meio de muito verde e de muitos livros, com vista para o rio e para a linha de comboio. 

Equilibrando-se como no Twister, com um pé na fotografia e outro na filosofia, uma mão na prática e outra na crítica da arte, entre Paris e o Porto, completou dois mestrados que se intersectaram na palavra e na imagem. Em Fotografia, com especialização em fotografia de Estúdio, no Instituto de Fotografia de Paris Spéos, e em Estudos Artísticos — Teoria e Crítica da Arte, na FBAUP, terminados e selados no ano de 2011, antes e depois de uma imensa viagem de comboio pela Europa, que lhe rendeu política e prosa. 

A prática fotográfica foi-se adensando sobretudo dentro das quatro paredes do estúdio. Entre a natureza morta, a moda, o retrato e algumas séries conceptuais, foi encontrando uma imagética singular, mais editorial e com várias questões estéticas inerentes.  

Depois de alguns anos de investigação sobre a problemática do tempo na experiência contemporânea da prática fotográfica, no grupo de Estética, Política e Artes no Instituto de Filosofia da Universidade do Porto, em 2013, ingressou no Doutoramento em Arte Contemporânea, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, com avanços e recuos, pausas e investidas, nunca deixando para trás até à data esta eterna questão. Conferências, seminários e, mais recentemente, aulas tornaram-se uma das formas de colocar em acto o pensamento e a palavra que advêm destas leituras infinitas e de uma escrita de si. Passou pela Escola Superior de Educação de Viseu, entre 2016 e 2017, para falar de fotografia, de ética e deontologia da imagem a alunos de comunicação e de artes.

Mais recentemente, tem explorado a fotografia dentro de novas formulações geracionais, bem como a imagem (parada e em movimento) e o som, na Escola Artística Soares dos Reis.

Ainda em 2013, foi-lhe apresentada a CRU, onde instalou um ainda tímido estúdio fotográfico, que foi crescendo até aos dias de hoje, juntamente com todas as parcerias, colaborações e contactos de trabalho que aqui foram estabelecidas, até que em 2017 se afirmou como a curadora oficial da galeria alternativa deste espaço. 

Apesar do não-essencialismo dos seus melhores dias, é convictamente uma criadora independente. E, entre 2015 e 2020, as colaborações com grandes entidades como a Farfetch, o Rivoli, a Elle ou a Vogue Portugal tornaram-se valiosos agentes do seu olhar ávido e escrita inquieta. Quer através de uma exigência de estilo e de técnica na criação de guias de styling de produto para e-commerce, quer pela solicitação de ensaios críticos sobre dança contemporânea ou performance, de entrevistas ou reportagens sobre temas em constante revolução.

Finalmente, ainda no ano de 2020, juntamente com a Filipa Moredo, amiga e companheira de vida, foi criada a VOYEUR, um laboratório criativo que visa trabalhar com criadores independentes e fazer jus ao modo como pretendem ver o mundo crescer de forma sustentável e justa. 

Falta apenas dizer que, apesar das breves incursões por Paris e Lisboa, tudo isto se tem passado sobretudo no Porto!

A Rossana é um dos mais felizes encontros que a CRU, enquanto pano de fundo para serendipidades e acasos frutíferos, nos proporcionou. Alinhada, desde o início, a nossa atitude de partilha, confluência, agregação,  tem sido cúmplice de múltiplas aventuras, uma amiga do peito, e (literalmente) um braço direito. Extensão da nossa energia, contemporaneidade e conceito, no estúdio, na galeria, e em muitas palavras escritas. Num plano profissional, muito nos orgulhamos de ter acolhido duas suas exposições individuais, e ter sido rampa de lançamento para as duas primeiras edições da sua publicação independente, a Duck Soup, que ainda podem encontrar à venda na CRU.

O que costumas escrever no campo ‘profissão’ nos censos e outros formulários tradicionais?

Trapezista. Caminhar em cima de uma corda suspensa acima do nível de qualquer olhar e em equilíbrio e desequilíbrio constantes para não cair. 

Tenho um olhar perscrutante que se traduz num grande apetite imagético e num desejo infinito e até delirante por múltiplos horizontes de escrita. Divido-me, assim, entre a imagem e a palavra, que ora se afastam, ora se aproximam na investigação académica a que me dedico, na direcção criativa da VOYEUR e nas aulas que dou.

Concentração vs procrastinação… qual é a tua receita para a produtividade?

É uma dança. Às vezes, mais ‘slow’, outras, mais frenética. Gosto muito de poder começar o dia lentamente, com café, leitura e as muitas notas que dela decorrem. Ou de poder passar uma tarde a ver filmes, ou a passear e visitar exposições.

Apesar de não ter tantos momentos destes como gostaria, são eles que me dão fôlego, que me inspiram ou que me dão indicação de algo ainda por revelar nas tarefas de maior concentração do dia-a-dia.

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

Tenho múltiplos espaços de trabalho. Não obstante, aquela que considera a minha mesa de trabalho fica na minha sala e tem janelas à frente e estantes de livros atrás. Como quem diz, preciso de horizonte à minha frente e, atrás de mim, um mundo de saber.

A minha mesa de trabalho foi sempre algo de muito importante para mim. Tenho moodboards com designs vários e sonho desde pequena com a mesa certa. Conta a lenda que desde que me conheço que passava a vida a fazer a minha família levar todas as mesas-secretária que encontravam para casa. 

Relativamente aos objectos, é tudo mais simples. Uma agenda para as intenções. Algumas canetas para os rabiscos ocasionais. O computador. Alguns livros a serem consultados na altura. E algumas plantas que vão sobrevivendo ao ar que partilhamos.

Que livros mais te influenciaram na tua vida profissional?

Seriam tantos os livros que me têm acompanhado que é quase uma tarefa ingrata responder. 

Com certeza, nessa resposta, figuraria toda a obra de Gilles Deleuze, um dos meus grandes companheiros de viagem, que me ensinou, sobretudo, a Pensar; de salientar o “Anti-Édipo – Capitalismo e Esquizofrenia”, que ainda hoje reverbera no modo como ‘ensaio’ no mundo. 

Falaria, também, de Virginia Woolf e da sua intuição de um tempo outro, sobretudo o livro “As Ondas”. Ou de Michel Foucault, nomeadamente, os “Cursos do Collège de France”, pela ‘boîte à outils’ de um pensamento sempre contemporâneo. Ou dos fragmentos de Walter Benjamin e de Simone Weil, que inspiram a uma forma de coragem política. 

Mais recentemente, a colecção de livros da Sr. Teste tornou-se um dos grandes objectos do meu desejo e dedicação. Uma série de textos de autores, para mim, intemporais, transformados em belíssimos livros repletos de espanto poético.  

Finalmente, Olivia Laing, autora que comecei a ler a propósito da sua paixão por Virginia Woolf e obsessão por horizontes aquáticos, cuja obra mais recente, “The Lonely City” e “Funny Weather”, se tornou um constante lembrar da Arte como modo de resistência e de reparação, de partilha sensível e hospitalidade com o Outro.

quem são os clientes da Voyeur e o que é que os faz escolher os vossos serviços?

Neste momento, marcas e criadores independentes, já com alguma experiência ou maturidade na área, mas relativamente emergentes no meio digital. 

Como a VOYEUR acredita em trabalhar por um mundo mais sustentável e justo, no sentido de nos podermos intersectar e apoiar uns nos outros, de modo a que todos possam ter condições de possibilidade mais próximas, e, como naturalmente trabalhamos num meio assim, acabamos por ter a visibilidade necessária para que nos contactem. Trata-se, sobretudo, de uma comunicação ‘word-of-mouth’.

As produções mais espontâneas que temos feito, com equipas mais informais ou até experimentais, têm corrido muito bem e têm também contribuído para a afirmação do nosso estilo e da nossa singularidade.

Atrás de uma grande mulher está sempre…quem?

Ideias. Não demasiado humanas e absolutamente impessoais.

Como é para ti ser uma criativa independente, actualmente?

Uma espécie de Frankenstein, ou como a Mary Shelley lhe chamou, um Prometeus Moderno. 

Além da compartimentação óbvia em várias áreas de saber e fazer, a constante adaptação num mundo sempre novo.

O que te faria mais feliz ou realizada profissionalmente?

Neste ínfimo instante (porque estou sempre a mudar de alvo), a criação de uma revista — plano irremediavelmente implantado na cabeça da Voyeur — e terminar a minha tese de Doutoramento — que, só por si, quereria dizer o colocar em marcha de muito mais coisas.

quem é a Rossana quando não está a fotografar, formar ou a escrever?

Continua a ser voyeur e, compulsivamente, flâneur. 

Creio que a minha relação com a leitura seja, talvez, a mais longa e a mais duradoura. De resto, a dança contemporânea, a música, o cinema e as longas conversas são também bons concorrentes aos meus dias. Bem como longas caminhadas urbanas, à boa maneira situacionista. 

Tudo isto acaba por gerir a poética do meu quotidiano, bem como a razão de me dedicar completamente a um trabalho de vida.

quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes anos enquanto empreendedora / freelancer?

Acho que a lição mais valiosa que aprendi ao longo deste tempo todo de trabalho foi que é muito mais motivante, apaixonante, energizante — e tantos outros atributos ligados à vitalidade — fazer as coisas em comunidade, em parceria, junto com alguém. Durante muito tempo, achei que tinha que fazer tudo sozinha de modo a manter a minha independência de ideias e de movimentos, mas com a VOYEUR, com a CRU, e com muita poesia e Ideias à mistura, aprendi que há muito mais singularidade na multiplicidade.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Mendes Fonseca Fotografias: Rossana Mendes Fonseca

Rui Salgado | FIU Jardins Suspensos

By | CRU Spotlight

O Rui é o par de mãos por detrás dos kokedamas mais elegantes do Porto (e do país) — da Fiu – Jardins Suspensos® —, marca que nasceu em 2012 e não parou de ganhar reconhecimento.

Rui Salgado nasceu em Guimarães (1985), mas fez do Porto casa, há já 8 anos.

Licenciado (e pós-graduado) em Arquitectura Paisagística pela UTAD, Rui foi bolseiro no Programa Erasmus com deslocação para Wroclaw (Polónia), frequentando a Uniwersytet Przyrodniczy we Wrocławiu (faculdade das Ciências e do Ambiente, Universidade de Wroclaw). 

Entre 2010 e 2013, foi somando diversas experiências profissionais na área, como em Coordenação e Construção de jardins e em Gestão de campo, produção, manutenção e condução em modo biológico de ervas aromáticas, flores comestíveis e frutos silvestres. Entregando-se, logo depois, a tempo inteiro à Fiu.

A Fiu – Jardins Suspensos® é uma empresa dedicada à transformação de plantas, através de uma técnica milenar japonesa, que implica uma sofisticada moldagem manual da terra e das suas raízes por uma camada de musgo — kokedamas —, envolvida por fios. O resultado é uma forma alternativa, bonita e diferente, de suspender plantas, no interior ou no exterior.  

O Rui é uma pessoa extrovertida, com uma personalidade optimista e positiva, uma atitude profissional e dedicada. Para além de fornecer à nossa loja as suas Fius, quase desde o início (2013), é um amigo da casa e o nosso consultor informal em tudo aquilo que diz respeito a plantas na CRU.

Se este artigo vos fez ansiar por uma destas belas plantas, não hesitem em consultar o site da Fiu ou visitar-nos um dia destes na loja da CRU.

A Fiu tem já um percurso longo, como se foi adensando o teu envolvimento neste projecto?

A FIU – Jardins Suspensos® surgiu em ideia no ano de 2012, através das mãos da Ana Miguel (como bem sabes) materializando-se em Janeiro de 2013 (onde entrei eu).

O meu envolvimento foi sendo gradual,mediante o crescente volume de trabalho que ia aparecendo, aconteceu de uma forma natural e quase inevitável.

O percurso da FIU começou quase como uma brincadeira, começou como uma terapia pessoal que acabou por culminar quase que inevitavelmente num projecto mais profissional. Começou por uma loja de uma colega, também ela paisagista, e a aceitação por parte do público foi ótima, superando as expectativas.

Começámos a receber mais encomendas, mais pedidos de revendas, acabando por ser um crescimento gradual. 

Entretanto, a partir do ano 2015 até 2019, aproximadamente acabei por ficar apenas eu na FIU ( a Ana optou por se dedicar inteiramente ao campo da arquitectura paisagista), onde com muito esforço e dedicação consegui manter a marca, fazendo maioritariamente todas as tarefas necessárias, desde a compra da matéria prima, material, plantas, gestão dos stocks, passando pela produção dos kokedamas propriamente dita, a sua entrega ao cliente final, angariação de clientes, burocracia com contabilistas, etc…Foi um período desgastante, com algumas passagens muito conturbadas, que me ocupava quase todo o tempo, e que me levaram quase a desistir! Porém, e com ajuda da família e de alguns amigos, consegui resistir e arranjar forças para continuar, porque sempre acreditei na potencialidade do projecto e sempre acreditei que um dia iria compensar !

Em meados de 2019, deu-se uma espécie de “revolução” na FIU com a entrada da Telma. Uma vendedora nata, com uma apetência fora do comum para angariação de clientes e gestão das redes sociais. Encontrei o parceiro perfeito para esta minha caminhada, pois consegue ser ainda um pouco mais “doente” do que eu no que diz respeito ao trabalho! 

Isto possibilitou-me ter mais tempo para a produção e, consequentemente, para a parte criativa que tanto me faltava. Ela fica, então, responsável por toda a parte administrativa, e eu pela parte mais “prática” e produtiva. 

Desde então, a FIU tem vindo a crescer significativamente, estando agora com enormes perspectivas de crescimento às quais vamos tentar corresponder. 

Trabalho e conhaque…como doseias o teu cocktail?

Nem sempre é fácil dosear o tempo quando a mão de obra é fundamentalmente duas pessoas, e ainda por cima quando vivem e trabalham juntas no mesmo local! Porém, com alguma resiliência, tolerância e paciência, tudo é possível. 

Criámos horários laborais e pessoais (que às vezes não são bem seguidos à risca… O laboral acaba quase sempre por levar a melhor (hehe), mas é fundamental criarmos uma distinção entre o pessoal e o profissional: cada um ter o seu próprio espaço, e não nos deixarmos consumir pelo stress e preocupação. 

Até à data as coisas têm funcionado bem! 

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

No meu caso, a minha secretária é um pouco fora do comum..e adoro isso! Não tem canetas nem tablets…, nem folhas e agrafadores. Tem sim, plantas (muitas plantas), musgo, agulhas, fios de pesca, fios de “sapateiro”, linhas de algodão, pregos, alicates, tubos de latão, caixas de papelão!  

Trabalho numa pequena varanda, no centro do Porto (onde tudo acontece) que, apesar de estar no centro, é extremamente sossegada, onde predominam maioritariamente o canto dos passarinhos e o zumbido das abelhas. Tenho um enorme conjunto de árvores no meu alargado campo de visão, que me tranquiliza com os seus movimentos quase hipnotizantes naquelas brisas de Verão. Para mim, é o local de trabalho quase perfeito e, apesar de ser o meu “trabalho”, vejo mais como uma terapia pessoal, à qual já não consigo prescindir, e que me faz crescer imenso enquanto pessoa!

que formas encontras de activar a tua marca e de fazer chegar o teu trabalho às casas dos teus clientes?

Fundamentalmente, através das redes sociais e do marketing digital, penso que, com toda esta pandemia, estes processos vieram a ser “catalisados” de uma forma quase inevitável.

Apostamos também em parcerias com pessoas, projectos, que se identifiquem com a nossa forma de estar, e com os nossos princípios. Tentamos criar relações simbióticas em que ambos possamos ganhar com isso.

quem são os clientes da Fiu e o que é que os faz escolher os teus kokedamas?

Os clientes da FIU são clientes cientes da importância da preservação do ambiente que nos rodeia. Têm noção do impacto ambiental iminente, algumas vezes de uma forma um pouco “crua”, mas que no fundo percebem que alguma coisa não está bem e fazem algo para tentar mudar isso.

Os kokedamas FIU são únicos! Somos os embaixadores dos kokedamas em Portugal. Temos mais experiência e conhecimento do que qualquer outro, e isso traduz-se e reflecte-se na perfeição do nosso produto. Todas as plantas são escolhidas criteriosamente, todos os materiais são de primeira qualidade, as técnicas utilizadas, todas elas optimizadas e o mais sustentável possível, para criar um produto final melhor.

Quero acreditar que nos escolhem por criarmos um design duradouro e significativo que agregue valor e contribua para um planeta mais saudável.

Como descreverias a tua equipa de sonho?

A equipa de sonho, independentemente de quem seja, tem de partilhar os nossos valores, o nosso conceito, tem que se identificar com aquilo que acreditamos! 

Um bom analista financeiro que fornece uma estratégia inicial de crescimento sustentável, fundamental para o sucesso a longo prazo.

Uma excelente relação com todos os parceiros revendedores.

Bons vendedores que compreendam e consigam passar a nossa mensagem. 

Um bom marketeer que consiga estar sempre a par das novas tendências do marketing digital e consiga, ao mesmo tempo, inovar no branding.

Mas, fundamentalmente, a “equipa de sonho” iria ter que ser a melhor no seu campo e, acima de tudo, partilhar da nossa visão:

Um profundo respeito e consideração pelo bem estar do planeta e dos seus recursos!

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

O Porto está a tornar-se  cada vez mais um “porto” financeiro, uma verdadeira “incubadora” de ideias, onde surge talento e oportunidade quase ao virar de cada esquina e, como tal, exige de qualquer empreendedor, particular atenção ao detalhe, saber agarrar a oportunidade quando esta aparece, estar num constante estado de alerta. Mas, ao mesmo tempo, saber e ter a noção que vai haver falhas, e mais do recriminar essas falhas, ter a humildade de aprender com elas, porque só assim iremos evoluir de uma forma sustentável e a longo prazo.

O que está, para a Fiu, a seguir à próxima curva?

A FIU tem um potencial enorme, é muito mais do que a simples venda de kokedamas. Houve uma evolução natural e necessária naquilo que diz respeito ao produto em si (kokedama) com a introdução permanente de novas espécies, de forma a aliciar constantemente o cliente. Damos muita importância ao feedback recebido, quer pelos nossos clientes quer pelos nosso parceiros revendedores, e, nesse sentido, houve um acrescentar de complementos ao produto, de forma a colmatar alguns entraves por eles (clientes) colocados. Nomeadamente, a introdução de novas e variadas estruturas de forma a ser possível pendurar os kokedamas sem ter que andar a “furar tectos”.

O caminho da FIU passa por abraçar a diversidade e promover a responsabilidade social. Estamos empenhados em contribuir de uma forma mais impactante e causar mudanças mais positivas! Para isso, temos apostado mais em acções de formação, nomeadamente, os nossos workshops, onde mais do que aprender a fazer kokedamas, procuramos que quem participa se sinta um pouco mais feliz, mais realizado, que consiga abstrair-se do stress diário, e encontre alguma paz, harmonia e felicidade nesse tempo. E, ainda, que pegue nessa felicidade e a espalhe, que a semeie por quem o rodeia! Acreditamos que “pequenas” acções podem fazer uma grande diferença! 

O futuro vai passar sempre por uma constante reinvenção, e uma constante dinâmica, sem nunca perder o foco naquilo que nos define. Queremos puxar os nossos limites, mas sempre com uma abordagem atenta ao detalhe e ligada aos princípios do ser humano, optando por um design sustentável e uma constante inovação. Queremos ter um impacto positivo, deixar um “rasto” de felicidade por onde passarmos, fazer pessoas mais felizes com o nosso trabalho. No fundo, tentar aquele objectivo quase idílico e utópico de fazer um “mundo melhor”.

Que armas usaste, a nível profissional, contra as maleitas da pandemia?

Curiosamente, nesta pandemia, acabámos por ter mais trabalho do que o habitual, fruto das campanhas que fizemos junto das redes sociais. No que diz respeito aos nossos parceiros revendedores, houve uma quebra muito grande, visto que praticamente todos os estabelecimentos de venda ao público estavam encerrados. Porém, as nossas vendas online dispararam, fruto também de uma boa estratégia de marketing digital, apesar de o nosso produto ser mais “apetecível” ao vivo.

quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes anos enquanto empreendedor?

Acho que vou ser muito simples e prático nesta questão e, como é óbvio, contextualizá- la com base na minha mais modesta experiência. 

Resiliência, persistência, motivação, sacrifício, humildade, ser auto-didata, vontade de querer sempre melhorar e aprender, estar actualizado na área em que trabalhamos, estar atento a tendências e novidades, estar na vanguarda do que nos interessa, tentar estar sempre “um passo à frente”, nunca tomar nada como garantido e, nesta era de globalização, ser multidisciplinar!

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Rui Salgado

Filipa Moredo

By | CRU Spotlight

Com sangue do norte, a FIlipa tem muita garra e um coração gigante. É imediatamente notório que é uma pessoa acarinhada por todos aqueles com quem interage. Comunicadora, gentil e genuinamente dedicada às pessoas, projectos e causas que abraça, Filipa Moredo é uma profissional independente, super criativa e extremamente competente.

Bragança é a sua cidade natal, mas foi na cidade invicta que estudou e para onde voltou após o seu curso de Marketing no ISCAP.

Em 2012, enquanto trabalhava numa associação de apoio a crianças com deficiência, conheceu Cíntia Woodcock, com quem viria a criar a Portugal Lovers e o Urban Market — mercado de criadores portugueses —, um dos eventos mais conhecidos da marca. 

Em 2019, as duas sócias decidiram seguir caminhos diferentes e a Filipa criou a sua própria empresa, Mesh Up Events, dando continuidade ao evento Urban Market e à sua missão de promover criativos portugueses.

2020 trouxe incertezas, pausas, mas também novas parcerias. Nomeadamente a VOYEUR, um laboratório criativo de produção de conteúdos escritos e visuais, projecto iniciado com Rossana Mendes Fonseca, e que pretende impulsionar marcas emergentes nos meios digitais. 

Conhecemos a Filipa aquando da sua entrada no nosso espaço de cowork, há cerca de 8 anos e, desde então, tem sido uma companheira de mil e uma aventuras, dentro e fora de portas. Hoje em dia, com uma ligação à CRU mais firme e permanente, é a nossa Head of Marketing.

Sabemos que és freelancer há já vários anos. Em que projecto(s) estás a trabalhar neste momento?

Sou freelancer há quase 10 anos.  

Neste momento, tenho o Urban Market em pausa, devido à pandemia. Entretanto, em maio de 2020, com a criação da VOYEUR, foram surgindo novos trabalhos de gestão de redes e criação de sites.
No final de 2019, fui convidada para a equipa do FANTASPORTO, o Festival Internacional de Cinema, trabalho que se mantém até hoje.

E, no final deste ano, a convite do Simão do Vale Africano aceitei ser produtora no seu novo projeto, VÁCUO, co-criado por ele e pelo Daniel Silva, que esperamos ver, em breve, numa sala de espectáculos.

Concentração vs procrastinação… qual é a tua receita para a produtividade?

Sou uma pessoa de manhãs e a minha receita para a produtividade começa cedo com o exercício matinal. Eu sei e sinto que, senão o fizer, a minha energia e predisposição ao longo do dia não é a mesma. 

No que  toca à organização, tenho por hábito planear o meu dia e fazer “To do lists”.

Que livros mais te influenciaram na tua vida profissional?

Gosto imenso de ler livros que me façam questionar e me deixem a pensar.

Nunca li propriamente impulsionada pela profissão, no entanto, vejo documentários e ouço muitos podcasts ligados à criatividade, entre eles, um dos meus favoritos é o “A Beautiful Anarchy” do David DuChemin. Por causa da pandemia, houve momentos em que senti que a minha criatividade estava a esmorecer, então fui buscar um livro que me foi recomendado e que aconselho, o “Creativity” do John Cleese.

Como descreverias a tua equipa de sonho?

Como trabalho com diferentes projectos, tenho sempre trabalho com  pessoas diferentes, com métodos de trabalho distintos. Por isso nunca idealizei uma equipa de sonho. Para mim essa equipa tem por base a comunicação, saber ouvir as pessoas e respeitar a opinião delas. Saber idealizar em conjunto, para um bem e objectivo comum.

Como é que o freelancing te tem tratado até agora?

Ao longo destes 10 anos de vida como profissional criativa independente sempre tive os meus altos e baixos, mas no geral não me posso queixar.

Claro que tudo na vida tem dois lados, e pelo lado negativo demarco a falta de apoio a nível estatal, e a possibilidade de ver projectos serem ‘usurpados’ por outras entidades.

Que camisolas vestes com entusiasmo?

Desde o momento em que entrei para a CRU – em 2013 – que o sentimento de pertença a uma comunidade criativa como esta, nunca me fez tanto sentido. 

Este espaço tornou-se, para mim, uma segunda casa, uma segunda família. 

Visto esta camisola com muito orgulho, pelas pessoas, pelo espaço e pelas experiências que me proporcionaram ao longo destes anos. Vou estar sempre grata à Tânia e ao Miguel que tornaram isto possível.

Que apps/software fazem te ti uma super-mulher?

Neste momento recorro a  imensas aplicações para gestão de redes sociais – ossos do ofício – e ultimamente à aplicação Notas do Iphone, para as minhas “To do list”. 

Quem é a Filipa quando não está a trabalhar?

Sou uma pessoa que gosta de pessoas e, por isso, está intrínseco em mim a ajuda aos outros. Estou sempre pronta para conviver, para uma jantarada com os amigos, para conversar e acima de tudo ouvir. 

Se puder, não perco um concerto, uma peça de teatro ou uma ida ao cinema. Adoro viajar e recentemente percebi o prazer de fazê-lo sozinha.
Depois tenho o outro lado, adoro estar sozinha e ter os meus momentos de dolce far niente.

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

Engraçado como, em tempos complicados, conseguimos reinventar-nos e ajustar-nos às circunstâncias. Durante a pandemia, apercebi-me que não conseguia estar parada, necessitava de trabalhar ou, pelo menos, ajudar. 
Nessa altura, surgiu a oportunidade de ir apoiar um centro de idosos, e não hesitei. Foram dois meses muito importantes para mim e, na verdade, foi uma “chapada de realidade” perante o panorama em que vivíamos.
A criação da VOYEUR, juntamente com a Rossana, permitiu-me alargar o meu espectro de trabalho para diferentes áreas, para além da organização e produção de eventos.

Tens algum motto ou mantra que recordas em períodos mais desafiantes?

Não tenho propriamente um motto, mas sempre tive um olhar muito positivo perante os momentos desafiantes da vida. Para mim, será sempre: “coração aberto, cabeça erguida, tu és capaz.”

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Filipa Moredo

Rui Ribeiro

Rui Ribeiro | Musgo

By | CRU Spotlight

Rui Ribeiro é co-fundador da Musgo, uma marca de design e produção de peças de mobiliário — com especial enfoque nos candeeiros —, feitas a partir da reutilização de madeiras e outros materiais sustentáveis.

Rui Ribeiro nasceu a 1985 e é licenciado em desporto e educação física pela FADE-UP. 

No regresso a Portugal, em 2016, após uma estadia de 3 anos no Rio de Janeiro, ele e a sua parceira e arquitecta Margarida Monteiro, decidiram consumar a aspiração em comum: dar vida aos excedentes de produção e aos materiais resultantes de recuperações e restauros de casas antigas portuguesas – portas, janelas, vigas.

Da simplicidade e respeito pelas características dos materiais que recuperam resulta um design intemporal. Paralelamente, a incessante procura pelo menor impacto ambiental com os seus produtos leva-os a estabelecer parcerias com instituições de ensino e investigação como a Universidade de Aveiro, bem como a utilizar materiais inovadores e inócuos ambientalmente, como o eco-cimento.

A loja da CRU tem orgulhosamente representado a Musgo e vendido os seus candeeiros desde 2018. A nossa relação com o Rui e a Margarida tem vindo a estreitar-se ainda mais desde a criação da Between Parallels, associação que advoga o design e desenvolvimento sustentáveis em Portugal, e onde todos somos sócios fundadores.

As peças da Musgo podem ser encontradas no site da marca ou na loja física / online da CRU.

O que é que te levou a criar a Musgo?

Eu e a Margarida, sempre tivemos ambição de trabalhar juntos num negócio próprio por acreditarmos que nos complementaríamos e quando regressamos do Brasil, em 2016, vimos a oportunidade de criar a Musgo.

Casa, escritório, coworking, oficina?… Onde passas as tuas horas de criatividade e produtividade?

O local de trabalho é o nosso atelier, numa antiga vacaria, que foi criado por nós e para nós e é onde nos sentimos bem! Estar em contacto com a Natureza é algo que nos traz tranquilidade, paz e inspiração para novos candeeiros e outras peças!

Quem são os clientes da Musgo e o que é que os faz escolher os teus produtos?

O nosso público alvo é maioritariamente um público ligado à sustentabilidade com preocupações ambientais e que valoriza o trabalho manual, o impacto social, as tradições portuguesas e a inovação associada ao Design. Somos igualmente solicitados por Arquitetos e por gabinetes de Arquitectura de Interiores. Os nossos pontos de venda são o nosso site e as redes sociais, lojas físicas parceiras e alguns mercados e exposições que participamos enquanto marca Musgo.

Como proteges a tua criatividade?

Essa é uma questão complexa devido ao tipo de produto e à facilidade com que as formas e os materiais podem ser ligeiramente alteradas e assim ser difícil proteger o que é nosso.

Quem mais faz parte do projecto Musgo? Como dividem as vossas tarefas e responsabilidades?

A Musgo foi criada por mim e pela Margarida. De uma forma genérica a Margarida é a criativa e eu mais responsável pela logística, mas ambos produzimos manualmente os candeeiros e temos a ajuda de um carpinteiro para as madeiras.

Como é para ti ser empreendedor no Porto / em Portugal?

Ser empreendedor, ou tentar, é sobretudo um desafio e um processo de crescimento diário para conseguir estar sempre à altura do que possa surgir. Vivemos com a incerteza do futuro mas com a convicção que a cada dia que passa estamos mais perto de sermos bem-sucedidos.

A que tribos pertences?

Pertenço, enquanto sócio fundador, à Between Parallels, uma Associação para o Design e Desenvolvimento Sustentável. Esta participação deve-se ao facto de um grupo de marcas amigas do ambiente, microempresas ou empresas em nome individual, sentirem a necessidade de ter uma voz conjunta e reforçada.

O que te faria mais feliz ou realizado profissionalmente?

O futuro passa por criar novos candeeiros, alargar a nossa oferta para o mobiliário, experimentar outros materiais ecológicos e inovadores e levar a Musgo aos quatro cantos do Mundo!

Covid 19, 20, 21… que dores ou triunfos foste somando ao longo deste período?

No que diz respeito às práticas diárias pouco mudou pois já tínhamos como hábito estarmos bastante “confinados” ao nosso Atelier. Contudo, passamos a sair ainda menos vezes (idas a fornecedores, parceiros e clientes) que o habitual. Quanto ao trabalho, apesar da incerteza e da maioria das lojas parceiras estarem fechadas, foram surgindo novos clientes através do nosso site e das nossas redes sociais o que, de certa forma, manteve o nosso volume de trabalho e conseguimos ter tempo para o processo criativo.

Quais foram as maiores lições que aprendeste, nestes anos enquanto empreendedor?

Sendo a Musgo um projecto iniciado do ponto zero e numa área de actuação relativamente nova fez com que todo o processo fosse de muita aprendizagem numa perspectiva de melhorar e evitar ao máximo erro. Acredito que fomos sempre sendo desafiados, por clientes e parceiros, e isso fez com que mais que errarmos fomos nos adaptando às exigências mantendo-nos sempre fiéis à identidade da Musgo.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Musgo

Teresa Rego

By | CRU Spotlight

Se à primeira vista aparenta uma amigável calma com uma pitada de timidez, o seu trato jovem e alegre depressa faz adivinhar a explosão ordenada de cores que Teresa Rego, de 30 anos, exprime na sua obra. 

Mestre em arquitectura pela Universidade do Minho, foi até Londres para perseguir a sua paixão por ilustração. Aí, ingressou no mestrado em ilustração na University of Arts London. Viveu na cidade durante 3 anos, experiência que admite ter marcado o seu percurso, bem como a sua linguagem artística.

De volta à cidade onde nasceu, em 2018, passou um período no nosso cowork, onde a conhecemos, bem como o seu trabalho. E, daí, vieram as primeiras colaborações — uma intervenção notável na nossa montra no período natalício e alguns workshops de linogravura no nosso espaço.

Em 2019, abriu o seu atelier e showroom no número 475 da Rua de Oliveira Monteiro, onde se dedica inteiramente ao trabalho de ilustração e design, como intervenções em montras, ilustração de grande escala, têxteis, branding e interiores, em colaboração com várias marcas nacionais e internacionais.

Algumas menções incluem a selecção para os World Illustration Awards pela AOI, em 2017, Selecção top 12 UK designers pela Habitat UK, em 2019, e a menção honrosa no concurso de ilustração em cerâmica da Vista Alegre, também em 2019. 

Entre diversas exposições, participou na Bienal de Veneza em 2017, no 9th illustration Research symposium na Universidade Anglia Ruskin em Cambridge em 2018, Somerset House em Londres em 2017 e no Centro de Artes da Figueira da Foz a convite da editora Bruaa.

Actualmente, a artista integra a primeira exposição colectiva PANO DE FUNDO 2021, patente na CRU até 10 de Junho. Aqui, no seu atelier ou na sua loja online, pode encontrar-se uma miríade de formatos e dimensionalidades do seu trabalho.

Como vieste a tornar-te ilustradora?

Olhando para trás, acho que era inevitável. Durante o meu percurso em arquitectura fui-me relacionando cada vez mais com a parte artística e conceptual em vez da parte técnica. Quando terminei o curso simplesmente assumi que não era algo que me fazia feliz. A minha vontade de me dedicar a 100% à ilustração era cada vez maior, e ter ido para Londres na altura em que fui foi provavelmente das melhores decisões que tomei. O que aprendi permite-me desenvolver os meus trabalhos de ilustração e colaborações e também uma parte de trabalho mais pessoal de criar produtos com os meus desenhos.

És senhora ou escrava do teu tempo?

Para mim uma das melhores coisas de trabalhar por conta própria é ser eu a gerir o meu tempo. Horas de trabalho não são sinónimo de criatividade e trabalho feito, e é importante para mim ter isso presente e perceber que há dias super produtivos e outros em que mais valia ter ficado em casa.

Ter um espaço só de trabalho fora de casa para mim é essencial e ajuda a estabelecer alguma rotina necessária para fazer bom uso do meu tempo.

Revela-nos o que costumas ter em cima da tua secretária de trabalho, num dia perfeitamente normal

Guardo muitos cadernos e calendários, gosto de fazer listas de tarefas semanais.

Tenho uma zona onde trabalho só no computador e outra onde trabalho com outros suportes e faço as minhas colagens, pinturas, etc. É importante esta semi-organização, que parece bastante simples mas caso contrario estaria coberta de papeis, tintas, cadernos e telas por todo o lado.

Quem são as tuas maiores referências na área da ilustração? o que te impressiona nel@s?

A natureza e a arquitectura são sem dúvida os temas que mais me inspiram. As cores, as formas e texturas que daí advém são inacabáveis.

Admiro muito o trabalho de Josef Frank, e mais actual, Camille Walala.

Quais são os teus canais de comunicação de eleição que usas para fazer conhecer o teu trabalho?

Nos últimos anos o instagram funciona como registo do meu processo de trabalho e divulgação do percurso que vou realizando. Principalmente durante este ultimo ano foi essencial. Não acho no entanto que torne dispensável ter um site organizado e actualizado.

Que princípios te regem quando atribuis um preço ao teu trabalho ou negoceias com um cliente?

Desde o inicio da minha prática que fui confrontada com os parâmetros que devia ter em consideração na realização de orçamentos, apesar dos valores para trabalhos de ilustração ainda serem demasiado vagos.

Alguns parâmetros mais imediatos que tenho em conta são o tamanho do cliente/ marca, o uso da ilustração, o território, a duração, e caso se aplique, quantidades. Claro que existem outras variantes como os anos de experiência.

Como proteges a tua criatividade?

Acho que cada vez é mais difícil se estivermos a falar do meio digital.

No que depende de mim, entregar sempre um contrato ao cliente para ter a certeza que não há falhas de comunicação é essencial.

Recorda um dos teus momentos de maior orgulho profissional / Que projecto mais te encheu as medidas?

Quando ainda estava a estudar fui seleccionada para os World illustration awards da Association of illustrators em Londres. Foi um reconhecimento muito importante para mim pois estava mesmo no inicio da minha prática, e foi relativo a um projecto que exigiu muito de mim, a renovação de 2 restaurantes em Londres desde as ilustrações na parede, aos menus, peças decorativas, iluminação, tudo um pouco.

Espero no futuro colaborar em outro projecto assim, quem sabe em parceria com gabinetes ou arquitectos. Trabalhar em diferentes suportes é algo que me interessa bastante.

Quem é a Teresa quando não está a pintar, recortar e colar?

A Teresa só gosta mesmo de estar a desenhar, a cozinhar ou a passear.

Quais foram as maiores lições que aprendeste, neste últimos anos enquanto empreendedora/ freelancer?

Persistência. Acho que é muito importante em qualquer fase .

Há 2 frases que para mim fazem muito sentido :

“ Its a marathon , not a sprint” e “The day you plant the seed is not the day you collect the fruit”

Persistência, paciência e muito trabalho.

CRU Spotlight é um rubrica de pequenas entrevistas a pessoas da comunidade CRU, com foco em aspectos da sua vida profissional como independentes no sector das Indústrias Criativas.

Texto: Tânia Santos Edição: Rossana Fonseca Fotografias: Teresa Rego